Elos Clube de Tavira

Maio 31 2010

 

 

Dia útil significa que outros haverá, os Sábados e Domingos, que são inúteis.

 

Para quem tem Fé e celebra ao Sábado ou Domingo, essa classificação não faz sentido; para quem trabalha duramente de segunda a sexta, é aos fins-de-semana que descansa e não pode concordar com a inutilidade desses dois escassos dias; quem está aposentado ou vive dos rendimentos não tendo uma missão muito específica a desempenhar enquanto os outros trabalham, não vê por certo qualquer razão para distinguir os dias segundo um critério de inutilidade.

 

Portanto, os Sábados e Domingos são dias tão úteis como os outros só que neles devemos escrever coisas simples para não ocupar demasiado a mente de quem faz as suas orações ou apenas «carrega baterias» para a semana seguinte. Assim fiz.

 

Coisas simples são triviais, conhecidas de todos, vulgares. O dicionário ainda lhe junta mais o adjectivo ordinário, palavra de que não gosto por possível confusão com ordinarice. É que com esta não pactuo em qualquer dia da semana, útil ou inútil.

 

E das coisas mais triviais que hoje conhecemos, refiro o tom dramático dos noticiários que nos são metidos em casa explorando tudo o que há de negativo em Portugal como que a quererem convencer-nos de que por cá tudo é mau e que lá fora é que é bom. É que a exploração da morbidez e da inveja faz audiências e estas dão publicidade que factura. E assim anda o País a reboque da factura de uns poucos enchendo as bocas de quase todos com desgraças e maledicências.

 

Até que um dia houve em que uma televisão transmitiu um filme pirata duma professora e uma aluna à luta em plena sala de aula. Foi aí que o País viu a desgraça real em que se deixou cair e em que o escândalo foi mesmo sério. Mas pouco terá facturado pois ninguém imaginava que o impacto iria ser tão grande. E os cultivadores da desgraça, os que querem que tudo assim continue, logo arranjaram argumentos para punir o verdadeiro “Salvador da Pátria” que foi o aluno que fez o filme e nos mostrou como nos faz falta um enorme puxão de orelhas.

 

Os Professores fazem-me hoje lembrar os domadores de feras. Deixaram de ter como principal missão ensinar o programa oficial, passaram a ter que domar umas criaturas que os pais largaram na praça pública aos gritos de que tudo lhes é devido, que a tudo têm direito sem esforço. É assim que os políticos têm falado aos paizinhos e estes transmitem aos filhos todas essas irresponsabilidades transfiguradas em direitos. Para agravar a situação, esses paizinhos demitiram-se da função de educadores e endossaram essa tarefa aos Professores que tiveram que a somar à que inicialmente lhes competia e que era muito simplesmente a de aduzirem cultura geral aos alunos.

 

É claro que agora o esforço de retorno à vida responsável a nível nacional, ao inadiável realismo, vai ser um processo muito doloroso e os primeiros a apanharem por tabela são os Professores. E como os paizinhos não perceberam que a vida de irresponsabilidade que o regime de laxismo lhes incutiu já acabou, revoltam-se e … vão às Escolas bater nos Professores. E quem não consegue bater-lhes, calunia-os, nomeadamente na Internet.

 

Entretanto, conduzida a Justiça a um estado de evidente inoperância, isso sugere aos caluniados que não actuem pelas vias que seriam utilizadas numa qualquer sociedade em que a ética da responsabilidade [1] fosse um valor no activo.

 

Eis como em Portugal está em curso um parto com dor.

 

Eu tinha prometido tratar de coisa simples. Espero ter cumprido.

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

[1] - Sobre a ética da responsabilidade, v. Sloterdijk, Peter – ‘Palácio de Cristal’ – Relógio d’Água, 1ª Edição, Fevereiro de 2008

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:12
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