Elos Clube de Tavira

Fevereiro 16 2011

Vimara Peres (*)

 

Notas complementares

 

1) Afinal, por que razão Galiza e Portugal nunca conseguiram reunir-se? A razão deve ser esta: o suposto descobrimento em 813 do túmulo do apóstolo Tiago (Santiago). Como se explica isto? As autoridades religiosas predominantes na Galiza, com sede em Santiago de Compostela, ensoberbaram-se e quiseram roubar a Braga o prestígio arqui-episcopal desta, por meios pouco sérios e mesmo anti-cristãos, como foi o "Pio Latrocínio" (roubo à Sé de Braga por agentes compostelanos de relíquias sagradas mais veneradas do que as do próprio 'apóstolo' -- o principal facínora foi o Bispo Gelmires). O enorme prestígio criado por Santiago de Compostela, a que acorreram sempre milhares de peregrinos, serviu os interesses do imperialismo castelhano, que sujeitou o reino de Leão/ Galiza. Portugal neste contexto não podia aspirar em chamar a si a Galiza, mas tinha de defender-se, e conseguiu, resistindo ao ímpeto imperialista de Castela, que pretendia reuni-lo a uma Galiza domada e submetida. No tempo da nossa fundação, o poder e a grandeza estavam do lado da Galiza, e o Condado Portucalense, desejoso de independência sob a chefia dum jovem príncipe, era a parte fraca, que tinha poucas probabilidades de êxito. O plano iberista de Castela, que inicialmente era um condado do Reino de Leão, surgiu cedo e prosseguiu através dos séculos até hoje, quando ainda há uns portugueses tolos e ignorantes que nele colaboram.

 

Há tempos, disseram-me que se Portugal e Galiza não estavam reunidos num só Estado, a culpa tinha sido de D. Afonso Henriques que lutara contra a sua mãe, envolvida como estava com Fernão Peres de Trava, um poderoso da Galiza compostelana. Certo e errado! Se a independência de Portugal, a Galiza do sul, não se tivesse conseguido, hoje estaríamos a falar castelhano, nação submetida, em situação cultural muito pior que a da Galiza de hoje.

 

[Recomendo a leitura do artigo do galego Alexandre Banhos "Podemos nós, os galegos da Galiza espanhola, reclamar o nome de galego para a língua comum?" Este artigo pode encontrar-se no Google.]

 

2) As nações celtas cobriam muito provavelmente a maior parte da Europa antes da dominação romana. A Gália, que Júlio César conquistou, era certamente habitada por celtas. O mesmo sucedia nas Ilhas Britânicas. A julgar somente pelos topónimos, o mesmo sucedia no ocidente da Península Ibérica (Galiza), na Polónia/Ucrânia (Galitzia) e ainda na Anatólia, actualmente a Turquia asiática, (Galácia).Todos esses povos falavam certamente línguas celtas. Onde estão hoje as nações celtas e onde se fala o celta? A Gália romanizou-se, passou a falar latim, e acabou sendo povoada pelos Francos, povo germânico. A Galiza tem apenas dos celtas uma vaga memória e fala latim. A Galitzia, tanto quanto eu sei, é apenas um nome. Agora é habitada por eslavos e fala uma língua eslava. A Galácia, como nome apenas, nem sequer sei se ainda existe. Se existe, nela se falou grego e agora se fala turco.

 

Apenas na Grã-Bretanha, ainda existe uma nação sujeita, que se diz celta e fala minoritariamente uma língua celta. É o País de Gales (Wales), cujo nome celta é Cymru, sendo o nome da língua Cymraeg. Tentei em tempos estudar um pouco esta língua para ter uma ideia dela. Essa tentativa foi breve e a ideia que me ficou da língua é que é simplesmente intragável. Pareceu-me que o Cymraeg nem sequer era língua do grupo indo-europeu. Mas é.

 

Na Irlanda, a língua celta é a língua oficial, mas muito pouco se fala. A língua da Irlanda é muito predominantemente o inglês.

 

Na Bretanha francesa (Armórica), chamada Bretanha porque para lá emigraram bretões da Grã-Bretanha, ainda subsiste muito precariamente a língua celta trazida por esses bretões. E tende a desaparecer por completo. Na Galiza ninguém fala celta, mas sim o neo-latim português (galego), desprestigiado, e o castelhano, a língua do invasor ibérico.

 

Onde eu quero chegar com este arrazoado é que os celtas, por razões que me ultrapassam a inteligência, são suicidas. Perdem a raça, perdem a língua, perdem o enorme prestígio de que gozaram. E de tal maneira, que até perdem não só a língua celta, que já não conhecem, como a língua que adquiriram como substituta. É o caso muito nítido da Galiza, nação que foi grande e prestigiosa na Alta Idade Média, e hoje sofre as penas de terra alienada e língua, o Galego, em decadência.

 

Este caso particular interessa-nos, Portugueses, sobremaneira, porque a origem da nossa nacionalidade é galega, fomos na Antiguidade também celtas, tivemos e perdemos imensos territórios espalhados pelo mundo, a nossa língua foi a língua franca no Oriente, tivemos grande prestígio internacional, e agora estamos reduzidos a uma nesga de terra, e a nossa língua está ameaçada, se bem que se mantenha no mundo como uma das línguas mais faladas, graças ao Brasil e ao Ultramar Português.

 

A acção dos nossos políticos hodiernos parece ser a de uma auto-destruição, tão denegridora tem sido da nossa História e dos nossos grandes políticos de outrora. E os Portugueses, sempre pessimistas e sempre ciosos duma hipotética grandeza, hoje voltam-se para as ingloriosas 'glórias' do futebol.

 

3) Sabe-se que o Reino de Portugal se originou no Condado Portucalense. É verdade, mas talvez pouca gente saiba que antes houvera um primeiro condado de Portucale, cujo primeiro conde fora Vimara Peres (820-873), o fundador da cidade de Guimarães (Vimaranes). Foi Vimara Peres que libertou Portucale do domínio mouro, em nome do rei galego/asturiano Afonso III, o Grande. Vimara Peres é relembrado na cidade do Porto por uma estátua equestre levantada no largo em frente da Sé do Porto.

 

[A propósito: foi nesta Sé que o Mestre de Avis, já rei D. João I de Portugal, vencida a Batalha de Aljubarrota, se casou com D. Filipa de Lencastre, a princesa inglesa, mãe da "ínclita geração"].

 

(**)

 

Também condessa de Portucale foi D. Mumadona Dias, cuja estátua comemorativa se encontra em Guimarães) entre 924 e 950, a que se deve a construção do Castelo de Guimarães, não para defesa contra os Mouros, já então expulsos, mas contra os piratas vikings que nesse tempo faziam incursões atrevidas pelo interior do território. O último conde desta dinastia foi Nuno Mendes até 1065. O Conde D. Henrique de Borgonha pai de D. Afonso Henriques foi Conde de Portucale a partir de 1096. De tudo isto, que eu só aprendo agora, concluímos que como Nação viemos da Galiza e nos podemos orgulhar de que somos os galegos modernos, livres da "Doma e Castração" que representa a hostil dominação castelhana. Peçamos a Deus que saibamos conservar forte esta liberdade nacional, por muito que pese a só cretinos e calinos.

 

Haja Deus!

 

 Joaquim Reis

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://3.bp.blogspot.com/_bM_v6cSxRZI/TPX6Q9_AK2I/AAAAAAAABEk/t3hlvVzXPtc/s1600/VimaraPeres.JPG&imgrefurl=http://onossorasto.blogspot.com/2010/12/vimara-peres.html&usg=__1wtCPHqN0_z7Xy4QSsoWSLvf9_Q=&h=1024&w=680&sz=221&hl=pt-pt&start=0&zoom=1&tbnid=YZzJrQRwDFyhHM:&tbnh=126&tbnw=75&ei=U4tJTdbkDdSFswaH6sWwDw&prev=/images%3Fq%3DVimara%252BPeres%26um%3D1%26hl%3Dpt-pt%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbs%3Disch:1&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=490&vpy=308&dur=562&hovh=276&hovw=183&tx=89&ty=145&oei=U4tJTdbkDdSFswaH6sWwDw&esq=1&page=1&ndsp=23&ved=1t:429,r:14,s:0

 

(**)http://www.rotadoromanico.com/vPT/ORomanico/PersonalidadesHistoricas/FichadePersonalidade/Paginas/MumadonaDias.aspx

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:06
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Fevereiro 15 2011

 (*)

Biblioteca Municipal de Tavira, "Álvaro de Campos"

 

 

 

O Elos Clube de Tavira está atento à movimentação cultural na sua cidade. Assim, dá conta de algumas iniciativas dos últimos tempos que tiveram lugar na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos.

 

1 . Apresentação de livros

 

1.1. “A Casa da Oliveira", de Luís de Melo e Horta

 

No final do ano de 2010 teve lugar a apresentação do livro “A Casa da Oliveira”, da autoria do jornalista Luís de Melo e Horta que durante 19 anos e até 2009 foi Director do órgão regionalista local “Jornal do Sotavento”.

Presidiu à sessão o Dr. Jorge Botelho, Presidente da Câmara Municipal de Tavira e encarregou-se da apresentação o Dr. David Gonçalves Sequeira, Padre e Professor do Ensino Secundário, uma figura de relevo na cultura tavirense.

Tratava-se de uma ficção em que “As contingências sociais e económicas que envolvem, na época, a sociedade tavirense” eram tema do livro, cujo autor esclareceu que “(…) A simbologia em que a “Casa da Oliveira” se constitui como “figura principal” não dispensa, antes reforça, a importância do registo de uma família numerosa, na forma muito especial e muito solidária da sua vivência, a partir dos anos 30 e até final do Século XX, ali reconstituída”.

Muito da experiência do autor no âmbito da Comunicação Social assenta na inventariação de carências locais e regionais e na observação da forma como se desenvolvem as relações humanas, no concreto de comunidades urbanas como Tavira, que fielmente retrata por directo conhecimento.

 

1.2. “Um Olhar no tempo”, do Dr. David Sequeira

 

No princípio de Fevereiro foi a vez do Dr. David Sequeira fazer o lançamento público do seu livro “Um olhar no tempo”, sessão que foi igualmente presidida pelo Presidente do Município, acompanhado na Mesa, além do autor, pelo Dr. Jorge Correia e pelo jornalista Luís de Melo e Horta, a cargo de que esteve a apresentação da obra.

Segundo o prefácio do Bispo Emérito do Algarve, Dom Manuel Madureira Dias, “Não se pode querer encontrar aqui, nem a biografia de quem escreve, nem o relato minucioso de uma vida de pastor da Igreja na plenitude das suas actividades sacerdotais. Mas muito nos é dito da sua vida de “estudante e professor”e das muitas actividades culturais, desportivas e musicais.

Parece ser intenção do seu autor, deixar uma “memória” de muita coisa acontecida para que tal memória “não se venha a perder”. Trata-se de um testemunho. E é, como tal, que deve ser lido e entendido”

O autor constituiu-se, ao longo destes últimos quarenta anos e para além das suas atribuições pastorais, como uma presença interessada e constante na vida social e cultural da cidade de Tavira.

É o que, entre os relatos da sua própria formação, dos caminhos que percorreu e das funções pedagógicas que exerceu, ficou autenticado por este seu “Um olhar no tempo”.

 

2 – “Aristides de Sousa Mendes: uma memória resistente”, palestra pelo Dr. António Sousa Mendes

 

Por iniciativa da Associação Internacional de Paremiologia (AIP) que tem sede nesta cidade e é presidida pelo tavirense, Prof. Doutor Rui Soares, teve lugar a 12 de Fevereiro uma sessão cultural cujo programa envolveu uma exposição em BD sobre a vida e obra de Aristides de Sousa Mendes e uma palestra que recordou aos presentes a memória resistente do Cônsul Português em Bordéus, ao tempo de II Guerra Mundial. A palestra esteve ao cuidado de seu neto, o Dr. António Moncada de Sousa Mendes, professor na Universidade Lusófona e dirigente da Fundação que tem o nome de seu avô.

O orador veio lembrar a figura de Aristides S. Mendes, e a sua acção em que, em território francês, salvou milhares de judeus perseguidos pelo regime nazi, concedendo-lhes o “visto” para entrada em Portugal com que conseguiram escapar aos campos de concentração e às câmaras de gás de Hitler. O diplomata sabia que, ao confrontar as ordens directas de Salazar, arriscava a sua carreira e a sua vida e dos seus familiares.

O Dr. António Mendes fez um relato circunstanciado e apaixonante do que foi a vida de seu avô a partir da decisão que tomou em ajudar tantos milhares de seres humanos e da ignomínia por que passou, ao ser posteriormente demitido das suas funções.

Sem meios de sobrevivência para a grande família que constituíra, e tendo falecido catorze anos depois, em 1954, Sousa Mendes foi uma figura que o Regime de 1926 a 1974 remeteu ao esquecimento.

O Vice-Presidente da Câmara, Arquitecto Luís Nunes havia aberto a sessão, encerrada pelo Presidente da AIP que, depois dos agradecimentos ao orador, ofertou a todos os presentes um marcador de livros, com referências à figura homenageada e contendo um abecedário de provérbios alusivos aos Direitos Humanos.

_______________________

 

Em qualquer das três sessões aqui referidas, o auditório da Biblioteca Municipal de Tavira esteve sempre literalmente cheio.

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://commondatastorage.googleapis.com/static.panoramio.com/photos/original/10014275.jpg&imgrefurl=http://digitalmanuscripts.wordpress.com/2010/10/page/2/&usg=__LzB1xOcvxOhKuzQ5AkUlsjCXoZQ=&h=1264&w=1685&sz=331&hl=pt-pt&start=0&sig2=F4GBz6whng8kDD55QdGuww&zoom=1&tbnid=PjGHXBqIBY2naM:&tbnh=121&tbnw=155&ei=QExaTfLhJs7oOfmLia8L&prev=/images%3Fq%3DBiblioteca%252BMunicipal%252Bde%252BTavira%26um%3D1%26hl%3Dpt-pt%26sa%3DN%26biw%3D1007%26bih%3D681%26tbs%3Disch:10%2C306&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=722&vpy=192&dur=1513&hovh=194&hovw=259&tx=204&ty=87&oei=QExaTfLhJs7oOfmLia8L&page=1&ndsp=20&ved=1t:429,r:19,s:0&biw=1007&bih=681

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:41
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Fevereiro 14 2011

 GHLyauteyHubert

“Em todas as partes do mundo por onde andei, ao ver uma ponte perguntei quem a tinha feito, respondiam «os portugueses»; ao ver uma estrada fazia a mesma perguntava e respondiam: «portugueses»; ao ver uma igreja ou uma fortaleza, sempre a mesma resposta, «portugueses, portugueses, portugueses». Desejava pois, que da acção francesa em Marrocos daqui a séculos seja possível dizer o mesmo” Marechal Lyautey

 

Louis Hubert Gonzalve Lyautey (17 de Novembro de 1854, Nancy - 27 de Julho de 1934, Thorey): militar francês com serviço prestado durante as guerras coloniais; Residente Geral no Protectorado francês de Marrocos em 1912, Ministro da Guerra durante a Primeira Guerra Mundial e em 1921 Marechal de França; Membro da Academia Francesa e presidente honorário dos Escuteiros de França.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Wikipédia

 

In http://lusosucessos.blogspot.com/

In http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:37
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Fevereiro 13 2011

 

 

Como já vimos, os mouros, comandados por Taariq atravessaram o estreito de Gibraltar em 711 e facilmente derrotaram em Guadalete as tropas do rei visigodo Rodrigo, e em poucos anos se apoderaram de toda a Península Hispânica, excepto de uma pequena região montanhosa na costa cantábrica, as Astúrias. Foi aí, em Covadonga, que, segundo a tradição se iniciou a reconquista. Data de 718 a fundação do reino das Astúrias, sendo rei Pelágio, que começou a campanha contra os mouros invasores em 737. Nos 50 anos seguintes, Pelágio conquistou a Galiza e sua capital, a cidade de Braga, passando a Galiza a fazer parte do reino das Astúrias. Deve dizer-se que a resistência dos mouros não deve ter sido muito grande, porque seriam relativamente poucos e não gostariam muito de terra fria e húmida demais para seus gostos. Fosse como fosse, a Galiza deve ter renascido pelos fins do século VIII. Digo renascido porque existira a Galiza romana e a Galiza sueva. A Galiza era terra cristianizada havia já muito, e fora a pátria de Prisciliano, um bispo célebre pela sua doutrina peculiar, que fez escola e perdurou séculos. Lembremo-nos que o cristianismo, religião maldita nos seus primeiros tempos no Império Romano, fora tornada a religião oficial de Roma pelo Imperador Constantino, o Grande. Ele, segundo a tradição tivera a visão de uma cruz no céu e destas palavras: "In hoc signo vinces" (Com este sinal vencerás). E por esta razão convocou o primeiro concílio da Igreja (325 d. C.), o de Niceia, na Anatólia. E aí foi proclamado o Cristianismo como a religião oficial de Roma, que substituiria o tradicional paganisno politeísta. Mas... ai que misturaram política com religião ou vice-versa!...

 

Pois bem, na Galiza de religião cristã, confirmada ainda recentemente pelo Concílio de Niceia, surgiu Prisciliano que, julgado pelas autoridades eclesiásticas, foi considerado herético, propagando doutrina e ideias contrárias às ortodoxas havia ainda pouco tempo consagradas. Prisciliano deve ter nascido em 340, e morreu nos fins do século. Foi perseguido pela Igreja oficial, e convocado pelo imperador romano Máximo a Trier na Renânia, onde foi morto e decapitado, embora o crime tivesse tido a desaprovação de bispos honestos, como S.to Ambrósio, bispo de Milão. Com Prisciliano morreram também alguns dos seus companheiros. Passados alguns anos, Máximo foi deposto e assassinado e os devotos de Prisciliano trouxeram então os seus restos mortais de regresso para a Galiza e os teriam sepultado em Íria Flávia (hoje Santiago de Compostela).

 

Em 813, milagre! Descobriram em Campus Stellae, o Campo da Estrela, nada mais nada menos do que o túmulo do apóstolo Tiago (ou Iago? -- Jacques, em francês, Giacomo ou Giacoppo, em italiano, James, em inglês, Jacobus, em alemão.... ),. que fora decapitado em Jerusalém no ano 42. Como foi o corpo decepado do apóstolo Tiago parar à Galiza? Não se sabe, nem interessa saber. A verdade é que a partir daí se estabeleceu a crença, o mito jacobeu, e em religião não interessa a verdade nua e crua, mas sim crer e fazer crer, como acontece actualmente com o famigerado holocausto dos seis milhões. Seja como for, os restos mortais encontrados em 813 num túmulo do século IV passaram a ser relíquias santas, e hoje se conservam em urna de prata dentro da Catedral de Santiago de Compostela.

 

O acontecimento foi de transcendente importância política e religiosa para o Reino da Galiza, sempre sujeito a Leão-Castela. Milhões e milhões de peregrinos têm vindo de longe para visitarem a Catedral de Santiago e a urna com os restos do apóstolo. Primeiro vieram piedosamente, como sinceros crentes do mito. Hoje continuam a vir, como turistas, que a Galiza é terra de grandes belezas e gente cordata.

 

A Galiza só deixou de ser Reino nos princípios do século XIX, mas nunca deixou de ser sujeita. Hoje não é Reino, é Região.

 

Ainda como Reino, a Galiza, no século XV tomou partido por D. Joana, conhecida por "Beltraneja", a "Excelente Senhora", sobrinha do nosso rei D. Afonso V e herdeira do trono de Castela, contra sua tia, D. Isabel, a futura "rainha católica". Esta venceu, e, quando pôde, vingou-se da Galiza, exercendo uma acção repressiva que ficou conhecida como "Doma e Castração do Reino de Galiza". Os galegos patriotas e cultos não esquecem. Eles não gostam dos castelhanos, como nós não gostamos. "De Leste, nem bom vento, nem bom casamento".

 

Hoje a Galiza, apesar do enorme esforço realizado pelos seus intelectuais e artistas literários para restauração da língua e eventualmente recuperação duma independência, de que usufruiram em muito breve lapso de tempo, sob Garcia II, irmão de Afonso VI, avô do nosso fundador D. Afonso Henriques, está altamente castelhanizada. "Os estrangeiros vieram e nós habituámo-nos", na expressão dum simples homem do povo galego.

 

Desde há muito, esses intelectuais vêem a sua língua a ser falada, viva e florescente, nas terras ao sul do Minho. E porque essas terras, pelo menos até ao Douro, foram território galego, eles sentem-se na sua Pátria quando estão em Portugal. A sua língua é o português -- o galego que escapou à fúria castelhanizante. E nós, Portugueses patriotas, que os compreendemos, sentimos asco e vergonha quando sabemos de algum dentre nós que diz alarvemente que queria ser "espanhol", ou porque ganharia mais uns tostões ao fim do mês, ou porque é iberista de mau porte, como o ridículo ministro nosso que disse ser um deserto ao sul do Tejo e confessou o apetite de ser castelhano porque "temos a mesma cultura". Arre burro!

 

Meus caros Amigos e compatriotas, oriundos das terra ao norte do Rio Minho, só vos posso transcrever as palavras de Pondal:

Os bons e generosos a vossa voz entendem, e com arroubo atendem o vosso rouco som, mas são os ignorantes e feros e duros, imbecis e escuros, que não vos entendem, não. Os tempos são chegados... da redenção!

 

SURSUM CORDA!

 

 Joaquim Reis

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:11
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Fevereiro 12 2011

 

 

Caros Companheiros Elistas

 

Atento o infra ESTÃO ABERTAS INSCRIÇÕES para um CURSO DE INICIAÇÃO À INFORMÁTICA a decorrer na Sede com início em Março. Saudações Elistas

 

 

 

Haroldo tirou o papel do bolso, conferiu a anotação e perguntou à balconista:

- Moça, vocês têm pendrive?

- Temos, sim.

- O que é pendrive? Pode me esclarecer? Meu filho me pediu para comprar um.

- Bom, pendrive é um aparelho em que o senhor salva tudo o que tem no computador.

- Ah, como um disquete...

- Não. No pendrive o senhor pode salvar textos, imagens e filmes. O disquete, que nem existe mais, só salva texto.

- Ah, tá bom. Vou querer.

- Quantos gigas?

- Hein?

- De quantos gigas o senhor quer o seu pendrive?

- O que é giga?

- É o tamanho do pen.

- Ah, tá. Eu queria um pequeno, que dê para levar no bolso sem fazer muito volume.

- Todos são pequenos, senhor. O tamanho, aí, é a quantidade de coisas que ele pode arquivar.

- Ah, tá. E quantos tamanhos têm? Dois, quatro, oito, dezesseis gigas...

- Hmmmm, meu filho não falou quantos gigas queria.

- Neste caso, o melhor é levar o maior.

- Sim, eu acho que sim. Quanto custa?

- Bem, o preço varia conforme o tamanho. A sua entrada é USB?

- Como?

- É que para acoplar o pen no computador, tem que ter uma entrada compatível.

- USB não é a potência do ar condicionado?

- Não, aquilo é BTU.

- Ah! É isso mesmo. Confundi as iniciais. Bom, sei lá se a minha entrada é USB.

- USB é assim ó: com dentinhos que se encaixam nos buraquinhos do computador. O outro tipo é este, o PS2, mais tradicional, o senhor só tem que enfiar o pino no buraco redondo. O seu computador é novo ou velho? Se for novo é USB, se for velho é PS2.

- Acho que o meu tem uns dois anos. O anterior ainda era com disquete. Lembra do disquete? Quadradinho, preto, fácil de carregar, quase não tinha peso. O meu primeiro computador funcionava com aqueles disquetes do tipo bolacha, grandões e quadrados. Era bem mais simples, não acha?

- Os de hoje nem têm mais entrada para disquete. Ou é CD ou pendrive.

- Que coisa! Bem, não sei o que fazer. Acho melhor perguntar ao meu filho.

- Quem sabe o senhor liga pra ele?

- Bem que eu gostaria, mas meu celular é novo, tem tanta coisa nele que ainda não aprendi a discar.

- Deixa eu ver. Poxa, um Smarthphone! Este é bom mesmo! Tem Bluetooth, woofle, brufle, trifle, banda larga, teclado touchpad, câmera fotográfica, flash, filmadora, radio AM/FM, TV digital, dá pra mandar e receber e-mail, torpedo direcional, micro-ondas e conexão wireless....

- Blu... Blu... Blutufe? E micro-ondas? Dá prá cozinhar com ele?

- Não senhor. Assim o senhor me faz rir. É que ele funciona no sub-padrão, por isso é muito mais rápido.

- Pra que serve esse tal de blutufe?

- É para um celular comunicar com outro, sem fio.

- Que maravilha! Essa é uma grande novidade! Mas os celulares já não se comunicam com os outros sem usar fio? Nunca precisei fio para ligar para outro celular. Fio em celular, que eu saiba, é apenas para carregar a bateria...

- Não, já vi que o senhor não entende nada, mesmo. Com o Bluetooth o senhor passa os dados do seu celular para outro, sem usar fio. Lista de telefones, por exemplo.

- Ah, e antes precisava fio?

- Não, tinha que trocar o chip.

- Hein? Ah, sim, o chip. E hoje não precisa mais chip...

- Precisa, sim, mas o Bluetooth é bem melhor.

- Legal esse negócio do chip. O meu celular tem chip?

- Momentinho... Deixa eu ver... Sim, tem chip.

- E faço o quê, com o chip? -

 Se o senhor quiser trocar de operadora, portabilidade, o senhor sabe.

- Sei, sim, portabilidade, não é? Claro que sei. Não ia saber uma coisa dessas, tão simples? Imagino, então que para ligar tudo isso, no meu celular, depois de fazer um curso de dois meses, eu só preciso clicar nuns duzentos botões...

- Nããão! É tudo muito simples, o senhor logo apreende. Quer ligar para o seu filho? Anote aqui o número dele. Isso. Agora é só teclar, um momentinho, e apertar no botão verde... pronto, está chamando.

Haroldo segura o celular com a ponta dos dedos, temendo ser levado pelos ares, para um outro planeta:

- Oi filhão, é o papai. Sim. Me diz, filho, o seu pen drive é de quantos... Como é mesmo o nome? Ah, obrigado, quantos gigas? Quatro gigas está bom? Ótimo. E tem outra coisa, o que era mesmo? Nossa conexão é USB? É? Que loucura. Então tá, filho, papai está comprando o teu pen drive. De noite eu levo para casa.

- Que idade tem seu filho?

- Vai fazer dez em Março.

- Que gracinha...

- É isso moça, vou levar um de quatro gigas, com conexão USB.

- Certo, senhor. Quer para presente?

Mais tarde, no escritório, examinou o pendrive, um minúsculo objeto, menor do que um isqueiro, capaz de gravar filmes! Onde iremos parar? Olha, com receio, para o celular sobre a mesa. "Máquina infernal", pensa. Tudo o que ele quer é um telefone, para discar e receber chamadas. E tem, nas mãos, um equipamento sofisticado, tão complexo que ninguém que não seja especialista ou tenha a infelicidade de ter mais de quarenta, saberá compreender.

Em casa, ele entrega o pen drive ao filho e pede para ver como funciona. O garoto insere o aparelho e na tela abre-se uma janela. Em seguida, com o mouse, abre uma página da internet, em inglês. Seleciona umas palavras e um 'havy metal' infernal invade o quarto e os ouvidos de Haroldo. Um outro clique e, quando a música termina, o garoto diz:

- Pronto, pai, baixei a música. Agora eu levo o pendrive para qualquer lugar e onde tiver uma entrada USB eu posso ouvir a música. No meu celular, por exemplo.

- Teu celular tem entrada USB?

- É lógico. O teu também tem.

- É? Quer dizer que eu posso gravar músicas num pen drive e ouvir pelo celular?

- Se o senhor não quiser baixar direto da internet...

Naquela noite, antes de dormir, deu um beijo em Clarinha e disse:

- Sabe que eu tenho Blutufe?

- Como é que é?

- Bluetufe. Não vai me dizer que não sabe o que é?

- Não enche, Haroldo, deixa eu dormir.

- Meu bem, lembra como era boa a vida, quando telefone era telefone, gravador era gravador, toca-discos tocava discos e a gente só tinha que apertar um botão, para as coisas funcionarem?

- Claro que lembro, Haroldo. Hoje é bem melhor, né? Várias coisas numa só, até Bluetufe você tem. E conexão USB também.

- Que ótimo, Haroldo, meus parabéns.

- Clarinha, com tanta tecnologia a gente envelhece cada vez mais rápido. Fico doente de pensar em quanta coisa existe, por aí, que nunca vou usar.

- Ué? Por quê?

- Porque eu recém tinha aprendido a usar computador e celular e tudo o que sei já está superado.

- Por falar nisso temos que trocar nossa televisão.

- Ué? A nossa estragou?

- Não. Mas a nossa não tem HD, tecla SAP, slowmotion e reset.

- Tudo isso?

- Tudo.

- A nova vai ter blutufe?

- Boa noite, Haroldo, vai dormir que eu não aguento mais...

 

(autor desconhecido)

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:16
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Fevereiro 11 2011

[CondessaD_TeresaD_AfonsoHenriquesFilhaReiD_AfonsoVIdeLeon.jpg] (*) 

 

(Teresa, para os botões do seu corpete, após o recontro de S. Mamede - que ela venceu)

 

“Por fim, tenho ao alcance das minhas mãos o reino que foi de meu tio e que meu pai me negou. A mim, a sua filha preferida, só porque os senhores bispos ousaram fadar-me de ilegítima por ter nascido fora do ritual que Roma agora nos impõe. Para Urraca, minha irmã, a legítima que a Igreja incensava, tudo: reinos e senhorios, um primogénito para desposar (que de pouco lhe valeu, se não ela não teria chamado o meu Henrique para seu condestabre e sabe-se lá para que mais). E eu que me bastasse com um filho segundo que não tinha onde cair morto e um condado feito de bocados, cheio de gente rude que não conhece senhor e de moçárabes, os de Coimbra, que não são de fiar. Foi isto que de meu pai, Alfonsus Imperator, recebi. Ah! Mas eu ambicionava um reino, que só um reino era digno de mim. E reino havia. A Galiza, que meu avô Fernando fizera reino e doara a seu filho Garcia, morto este, quedara sem suserano a quem chamasse seu. Os grandes condes galegos, os Travas, os Toroños, os de Orense, instigados pelo bispo Xelmirez (que eu nunca o tenha por inimigo), bem se levantaram contra Leão, uma e outra vez. Não lhes faltava pretexto, ao verem tantos Francos a insinuarem-se nos favores reais e a instalarem o seu poder e as suas linhagens onde, até há pouco, era só terra de Godos. Faltava-lhes, sim, quem tivesse estirpe igual à da leonêsa que queriam expulsar. De mais sabia eu o que atormentava Xelmirez. Não era a sorte do reino galego e dos seus ricos-homens. Era, sim, o medo de perder para o bispo de Toledo, Primaz das Espanhas desde os tempos dos reis antigos, e para mais um Franco, a veneração e o temor que Compostela, qual Compostela! que ele, Xelmirez, inspirava na nossa cristandade. O bispo de Braga, manhoso como todos os da sua raça, lá tem manobrado entre Compostela e Toledo para ver se agarra umas quantas mais sés sufragâneas, que sempre vão rendendo bons proventos. Durante anos e anos apoiei-o nessa lide, na esperança de fazer do condado portucalense um reino. Tarde me apercebi que Urraca nunca mo permitiria. Ainda esperei que ela, ora entretida a fazer guerra ao seu segundo marido, o navarro Alfonso (dizem que pouco dado à peleja amorosa...), ora distraída nos braços do seu amante Haro, me desse azo. Nunca mo deu. Estava escrito que o reino da Galiza seria o meu destino. Por ele lutei. Por ele venci. Mas não foi fácil. Aquela ideia de desposar uma filha minha com o meu amante Bermudo (quando este, por morte de seu pai, Pero Froilás, encabeçou o condado de Trava ) para assim ter do meu lado os condes galegos e os seus homens d’armas, ia deitando tudo a perder. Incesto! Vociferava a nobreza de Entre-Douro-e-Minho. Incesto! Acusava o bispo bracarense e, com ele, todo o clero nas igrejas. Incesto! Repetiam cavaleiros vilãos e herdadores. Qual incesto! Estes, o que temiam era a sede insaciável dos nobres por terras, honras e senhorios. Disse-lhes que só uma rainha poderia reprimir tais apetites – e eles acreditaram. Hoje, não estiveram por mim, mas também não pegaram em armas, Deo gratias. Ao bispo de Braga não demovi, por mais que lhe jurasse que eu (não já condessa, mas rainha) nada ganharia com tornar Compostela a sé maior dos meus domínios. Os nobres portucalenses, esses, sabia eu, não queriam ver-se arrastados pelos seus senhores galegos para uma guerra com Leão da qual não esperavam tirar, nem honra, nem proveito: perdida a causa, não escapariam à vingança que de lá viria; em caso de vitória, só algumas migalhas lhes tocariam. Razão tinham, pois os fossados por terras de sarracenos sempre rendem melhores presas. Foi isso mesmo que eu lhes mostrei. Comigo rainha, seriamos, nobres galegos e nobres portucalenses, suficientemente fortes para fazer como meu pai e meu avô: assolar as cidades mouras, submeter os seus príncipes e obrigá-los a pagarem párias em ouro, prata, armas, cavalos, enfim, em tudo aquilo que serve para reter fidelidades e curar despeitos. Alguns convenceram-se, e estiveram hoje sob o meu pendão. Outros, na sua cegueira, arrastaram o meu filho contra mim. Bem lhe disse que este era o momento de eu ser rainha e de ele, um dia, ser rei. E mais lhe disse que, condes, só o seriamos enquanto soprassem bons ventos da corte leonêsa. O momento era agora. Desaparecida a minha irmã (de parto! com quarenta anos já feitos!), com o meu sobrinho Alfonso ainda mal sentado no trono, Leão levaria tempo a reagir. E levou, se é que pensou fazê-lo. Os de Bragança, chamados em auxílio pelos que se me opunham, ainda devem estar à espera da ordem para avançar do seu suserano leonês, porque no campo de batalha não se fizeram ver. Laus Deo, que à vista das hostes dos Travas e de tantos outros cavaleiros galegos, mais aqueles que de cá se me juntaram, os que se escondiam atrás do meu filho acharam melhor furtar-se à peleja. Antes assim, que não se semearam novos rancores. E agora? Ala para Compostela, a preparar-me para quando Leão ripostar. Afonso Henriques virá comigo. Assim os que me combateram vão ficar a saber que também sei perdoar (e como necessito deles para o embate que aí vem!). Disputarei a Leão as párias das taifas mouras: Badajoz, Sevilha, Córdova e mais além, mas não impedirei que os meus cavaleiros, nobres e vilãos, continuem a lançar os seus fossados e correrias por terras de infiéis. Aos poucos, despojarei Leão das fontes que lhe têm dado riqueza e poder. Aos poucos, a corte leonêsa, sem mais riquezas para distribuir, desmembrar-se-á. Será esse o dia de eu entrar em Leão. Mas deixarei o condado de Castela seguir o seu caminho. É melhor assim. Castela, em permanentes lutas com navarros e mouros saragoçanos, jamais reunirá forças para me ameaçar, e sempre irá mantendo longe de mim aqueles que hoje a guerreiam. Toledo não tardará a ser minha também. E, então sim, farei do Douro, do Tejo, do Guadalquivir e do Mar os fortes esteios de um grande reino que ninguém poderá alguma vez destruir. O domínio absoluto sobre metade da Hispânia, do mar ocidental às pastagens da Meseta, das Astúrias às costas da Bética e, porque não? de Múrcia - talvez um Império, se o Papa se deixar convencer – eis o que será de Afonso Henriques quando eu morrer. E morrerei em paz, reparada que fica a injustiça que meu pai me fez.”

 

 A. PALHINHA MACHADO

 

Janeiro de 2007

 

(*) http://3.bp.blogspot.com/_qBxeUhi11-E/Stx6be7LN5I/AAAAAAAAAAU/YlOeHbc-tGE/s1600-h/CondessaD_TeresaD_AfonsoHenriquesFilhaReiD_AfonsoVIdeLeon.jpg

 

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:26
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Fevereiro 10 2011

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A História é um mar sem fundo, onde o amador mergulha, e mergulha, e se perde sem nada ver, porque a água está cada vez mais turva, e a luz é tanto menor, quanto mais fundo se desce. Também houve quem dissesse que a História é um terrível pesadelo, tão cheia está de tragédias horríveis e dramas estarrecedores. Na escola aprende-se a História altamente simplificada. Não podia ser de outro modo: Primeiro eram os iberos, depois vieram os celtas, que se fundiram com eles e formaram os celtiberos. Isto para a Península Ibérica ou Hispânica. Mas para as Ilhas Britânicas diz-se mais ou menos o mesmo: primeiro eram os iberos, depois vieram os celtas que, fundindo-se com eles, deram os celtiberos. Pelo menos, foi assim que julgo ter lido há anos numa história da Grã-Bretanha, em livro de divulgação, cujo título e autor se me escaparam totalmente da memória. O tipo do ibero ainda existiria na Grã-Bretanha: homem baixo, cabelo e olhos escuros, pele branca baça ou parda. E teria vindo do norte de África.... Enfim, simplificação excessiva que satisfaz as mentes juvenis. Que linguas falavam esses iberos? Não se sabe. Há quem queira atribuir-lhes parentesco com o basco, língua única, sem parentes conhecidos, talvez a língua mais antiga da Europa.

 

Que línguas se falavam antes dos Romanos no sudoeste da Europa, hoje Portugal e Galiza? Possível e provavelmente línguas celtas. Os galegos acreditam na sua origem celta e devem ter razão, a julgar pelo nome da "Galiza", cognato com "Gália", terra de celtas, com "Gales", terra de celtas, com "Galitzia", na Polónia, e com "Galácia", na Anatólia, terra de celtas.

 

Mas os chefes celtas, como o Breogão do Hino Galego, são mitos que os Galegos alimentam para se sentirem diferentes dos Castelhanos, originários talvez dos Iberos. Mas é tudo especulação. Como a Galiza, Portugal teria tido a mesma origem celta, mas o português-galego tem origem, sem sombras de dúvida, no latim, sendo difícil descortinar as palavras celtas na nossa língua. Não conheço nenhuma. Parece, contudo, que na Galiza há professores que procuram pescar palavras celtas nas profundezas da História e nos mistérios da língua Os celtas não nos deixaram quaisquer documentos literários. Depois outros povos, outras raças se introduziram no mundo predominantemente latino e deixaram seus rastos: os godos e os mouros (berberes e árabes). Da presença destes nota-se tanto na Galiza como em Portugal uma certa diferenciação. Enquanto em Portugal se diz "alfaiate", vocábulo árabe, na Galiza diz-se "sastre", vocábulo latino. O que nos leva a concluir que a fala do sul sofreu mais a influência do árabe que a do norte. Do mesmo modo, o galego usa os nomes dos dias da semana originários do latim (luns, martes,...), enquanto os portugueses os designam como os árabes (segunda, terça,...). De qualquer maneira, é indiscutível a identidade do português com o galego e vice-versa, mesmo modernamente, quando já lá vão quase mil anos desde que o condado portucalense se separou do reino da Galiza, para nunca mais se reunir com ela politicamente. Ainda bem, porque uma hipotética reunião não significaria a independência da Galiza, mas nova subordinação de Portugal a Castela.

 

Por que razão a Galiza ficou atrelada a Castela, com a consequência de ver a sua fala abandalhada, amesquinhada e desprezada pelos arrogantes do médio oriente hispânico? Pergunta para mim muito difícil (ou impossível) de responder.

 

Quanto à situação da fala galega, tenho algo para explicar.

1º caso: Entrei numa livraria na Galiza. O dono, ou o empregado, respondeu-me em castelhano ao meu português. "O Sr. não sabe falar galego?" -- perguntei-lhe. Sabia, era até em galego que falava em casa. Mas o homem não foi capaz de falar galego comigo, um cliente português, que ele entendia perfeitamente. Conclui que tinha vergonha da sua língua-mãe, que não era língua para se usar numa livraria, antro de cultura.

2º caso: A cena repetiu-se noutra loja, que não era livraria. "A Sr.ª não sabe falar galego?". Sabia. "Então por que não fala galego?" " Ah! Essa linguinha?!", respondeu-me como que indignada. Na Galiza -- pareceu-me -- quem não falasse castelhano evidenciava o seu baixo estatuto social.

3º caso: Por isso é que eu ouvi um pedinte implorando esmola num galego tão perfeito que fiquei pensando que os pedintes portugueses vinham pedir para a Galiza.

4º caso: Lá bem ao norte, na costa cantábrica, um sujeito, ouvindo-me e à minha mulher a falar, dirigiu-se-nos a palavra com um ar muito simpático. Era galego, aparentemente distribuidor de pão. A sua língua era perfeito português, o que me encantou e me fez logo simpatizar com ele. Ele gostava muito do português, confessou-me.

5º caso: Em Baiona, o hotel estava cheio, apenas restava um cubículo, onde mal cabia a cama. Sujeitámo-nos. Depois queixei-me à funcionária que o "quarto" era muito pequenino. A funcionária gozou com a palavra "pequenino". Fazia-lhe certamente lembrar a "linguinha" dos pedintes, dos serviçais, dos empregaditos, etc. Fiquei um pouco melindrado.

 

Isto foi há 17 anos. Tenho a impressão, se não a certeza, que a condição social do galego se modificou e continua a modificar para melhor. O nacionalismo dos Galegos parece-me evidente. E nós, Portugueses, temos certa responsbilidade nisso. O galego tem cada vez mais a noção de que a língua portuguesa e a língua galega são a mesma e uma só, com variantes locais que são naturais e perfeitamente admissíveis. E embora o ineficaz e incompetente governo de Lisboa se mostre relutante em tomar uma posição quanto à língua que possa melindrar Madrid, a verdade é que o Português mais evoluído percebe bem a situação e está incondicionalmente ao lado dos patriotas galegos. Até ao dia em que o Reino da Galiza (chamado Região) possa finalmente libertar-se da tutela do Imperador em Madrid, como D. Afonso Henriques, rei de Portugal, se libertou da malhas que o prendiam ao imperador Afonso VII de Leão e Castela.

 

Factos históricos

 

Os mouros (berberes islamizados) invadiram em 711 a Península Ibérica por Gibraltar, local a que deram o nome do seu general: jabal Taariq (monte de Taariq). Em muito pouco tempo (uns 3 anos), depois de desbaratarem os exércitos dos visigodos, tiveram praticamente toda a Península dominada. Uma pequena região, porém, manteve-se livre: as Astúrias. Em 718, fundado o reino das Astúrias, cujo rei era Pelágio, iniciou-se a Dinastia asturiana e a reconquista dos reinos cristãos, que só foi concluída em 1492 com a conquista do califado de Granada pelos Reis Católicos, após dez anos de guerra.

 

Mas.... tenho pano para mangas, e para não maçar agora mais os hipotéticos leitores com tanta costura, fico por enquanto por aqui em Oviedo ou Covadonga.

 

(continua)

 

 JOAQUIM REIS

 

(*) http://www.colindixonphotography.com/images/CWA/Santiago%20de%20Compostela,%20Galicia,%20Spain.jpg

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:09
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Fevereiro 09 2011

 

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Este blog faz hoje 1 ano

 

 

 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:29
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Fevereiro 09 2011

http://projecto-intercambio.blogspot.com/

 

http://vimeo.com/19570436

 

ESTAMOS À PROCURA DE PARCEIROS PARA O NOSSO PROJECTO !!

 

O Projecto Intercâmbio (PI) foi idealizado por crianças que frequentam o curso de Língua e Cultura Portuguesas (LCP) em Essen, Alemanha.

 

O seu objectivo é conhecer e interagir com outras crianças portuguesas, luso-descendentes e lusófonas, que morem em outros países e partilhem interesses semelhantes...

 

ESTAMOS À PROCURA DE PARCEIROS PARA O NOSSO PROJECTO!

 

Contacto: projectointercambio@gmail.com

 

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:10
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Fevereiro 08 2011

 

 

Rugendas: Batuque

Fonte : Wikipédia

 

 

Júlio Ribeiro (1845- 1890) nasceu em Sabará, cidade colonial mineira, e morreu em Santos de tuberculose. Era filho de uma professora e de um americano boémio que chegou a Minas como artista de circo. Pouco depois do casamento abandonou mãe e filho, e sumiu para sempre. Do pai, Júlio herdou a agitação e a tendência a situações polémicas que se reflectiram no seu trabalho. Teve excelente formação académica, dominando inclusive várias línguas. Gramático, romancista, intelectual sarcástico e irreverente, naturalista, recebeu criticas contundentes por abordar na sua obra mais conhecida - A Carne - a sexualidade humana, coisa naquela época inconcebível.

 

Para ilustrar um aspecto da cultura negra no Brasil, um trecho que mostra como era uma “noite de festa nas senzalas”:

 

SENZALA - 1

SENZALA 2

SENZALA 3

Nota: Segundo a literatura popular, Pomba gira é uma entidade feminina de um culto afro-brasileiro que quando incorpora uma pessoa (médium) pode perverte-la sexualmente, dependendo das suas tendências.

 

 

Mª Eduarda Fagundes 2010.jpg Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 22 de Janeiro de 2011

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:31
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