Elos Clube de Tavira

Janeiro 15 2011

 Fernando Laginha

 Fernando Laginha

 

Que fizeste do tempo?

 

Que fizeste do tempo? Onde perdeste

A lembrança de tanto que lembrar?…. 

… A mágoa breve que te fez chorar,

Pequenas alegrias que tiveste,

……………………………………

As coisas que escutaste e que disseste,

Horas de tédio, esperanças que alcançar.

Segredos soluçantes ao luar,

Manhãs de sol!…os gestos que fizeste.

……………………………………

Que conta dás do tempo? À tua frente

O infinito e o medo pertinente

Do dia que há-de vir. Atrás, perdida,

……………………………………

Toda uma vida que mal enche agora

Os sessenta minutos de uma hora

Nos sessenta segundos de uma vida….

 

 

****

 

Eu

 

Passa gente por mim que eu não conheço,

Que a vida empurra para fins diversos.

Fogachos rutilantes e dispersos

Desta mesma fogueira em que arrefeço.

 

Cruzam-se em mim, – que estranho lhes pareço –

Seus caminhos distantes e reversos.

Falam as suas vozes nos meus versos

De outros versos sem fim e sem começo.

 

Assim me sinto alheio de meus passos,

Resquício de outros risos e cansaços,

- Sol de outro sol e sede de outra sede.

 

Assim, tudo anda em mim e eu ando em tudo… S

ou grito em cada grito, antigo e mudo,

E pedaço de pão na mão que pede!

 

____________________________

 

Fernando Laginha Ramos (Loulé, 21.Abril.1918; Lisboa, 03.Novembro.1974) foi um poeta autodidacta. Comerciante da área da ourivesaria, teve uma actividade literária algo discreta. Mas os seus versos implicam conceitos e sentimentos que, se em época mais recente o poeta houvesse vivido, teriam decerto encontrado maior eco e merecido outra divulgação.

 

Das duas produções aqui inseridas se pode aquilatar da serenidade da mensagem, através de um conseguido equilíbrio estrutural, em agradável sonoridade.

 

Foi amigo e protector de António Aleixo, tendo-o apresentado a Tossan (António Santos), o artista plástico que haveria de levar o Poeta popular ao contacto com o Dr. Joaquim Magalhães, que o “empurrou” para a reunião da obra.

 

Fernando Laginha era um homem dividido entre o aspecto prático do seu dia-a-dia e o gosto pela poesia. Limitava-se a concorrer a diversos Jogos Florais (onde quase sempre arrebatava um prémio) e nunca pensou publicar os seus versos.

 

Faleceu com 56 anos. E a família, para evitar que a memória se perdesse, reuniu uma parte da sua obra em livro, publicado trinta anos depois e intitulado “Poemas – Fernando Laginha”.

 

LUís Horta.jpg Luís de Melo e Horta

Presidente da Mesa da Assembleia Garal do

Elos Clube de Tavira

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:30

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