Elos Clube de Tavira

Janeiro 09 2011

 

 

Francisco José de Sousa Soares de Andrea*, se a memória me não falha, era o nome do valente general que pacificou o Pará, por ocasião da cabanagem. Devi a esse homem distincto a satisfação de o ter conhecido pessoalmente, porque elle dignou-se ir de propósito à casa onde eu era caixeiro para me conhecer também. Eu tinha apenas onze annos (1838); mas creio poder affirmar, sem immodéstia, que n’aquele tempo, as duas celebridades mais notáveis do Pará (Belém) eram o chefe da província... e eu. Elle distinguia-se pela energia com que batia os cabanos, pelo rigor que mantinha a disciplina militar e provia á defeza da cidade, ainda ameaçada por bandos de facínoras, espalhados pelos rios ou matas próximas; eu, pela audácia com que punia todas as pessoas que me insultavam, sem attenção ao seu tamanho, qualidade, sexo, ou número, e pela perícia com que lhes quebrava as cabeças, com os pesos das balanças ou com as garrafas de aguardente. A fama do general offuscava um pouco a minha, attendendo-se à posição mais elevada do presidente da província; mas os caixeiros da cidade affrmavam que, em vista da minha idade, eu era muito maior que Andrea!

 

Elle costumava ir frequentemente a casa de um meu vizinho, chamado João António Rodrigues Martins, irmão ou primo do barão de Jaguarari, que ficava fronteira ao estabelecimento onde eu era caixeiro. Das janellas d’essa casa via-se toda a rua da Paixão, até ao largo do palácio do governo; passavam por ali às vezes os presos cabanos, agarrados nos matos mais próximos de Santo António, Reducto e Paúl de Água, e não raro era que o presidente desse instrucções às escoltas que os conduziam, quando lhes passavam por baixo das janellas, mandando fazer nesses assassinos justiça summaria. Entre outros, recordo-me do seguinte facto:

 

Dois soldados conduziam um preso, segurando-o cada um do seu lado, pela cintura, e levando as baionetas desembainhadas. Andrea, que estava conversando ao pé da janella, viu-os e gritou:

 

- Ó soldado! Quem é esse homem?

- É o Diamante, meu general.

- O Diamante?!

- Sim, senhor.

- Tens a certeza d’isso?

 

O preso, que era homem de cor, entre preto e mulato, dos que no paiz denominam cafuzes, alto, musculoso, de olhar feroz e atrevido, voltou-se para a janella, onde se tinha reunido a família da casa, e, depois de encarar por um instante o general e as outras pessoas, disse:

 

- Vosserencia custa à capacitá que sô eu mesmo? Tem razão; Diámante não deixava apanhá por seu sordado, si não tivesse caído quando corria em Páu d’Água. Agora pode matá Ere, que já vingou, picando muito sordado de vosserencia. E tem pena de não matá vosserencia mesmo.

 

Toda a família se retirou para dentro, revoltada com a insolência do preso. Andrea disse para o soldado, deitando-lhe à rua um bilhete, rapidamente escripto a lápis

 

- “Dize lá ao ajudante,

Que sendo esse o Diamante,

O mande já lapidar.”

 

Não sei se elle teve a intenção de fazer versos; mas as palavras soaram-me do modo por que as escrevi nos meus apontamentos, há mais de trinta anos, e como transcrevo agora. Penso que Andrea não desgostava de rimar... mas corria como certo, no Pará, onde havia milhares de anedoctas a respeito de Andrea, umas cómicas e com pilhas de graça, outras dramáticas ou trágicas. Em todas as províncias onde elle exerceu comando, ficou um homem lendário. Com relação ao Pará, foram immensos os serviços que ali prestou, e sem a sua grande energia não se tinha pacificado a província em tão pouco tempo. Elle saía de noite, disfarçado, para rondar as guardas e sentinelas, e era implacável com as que apanhasse dormindo. Alguns negociantes, portuguezes e brazileiros, que tinham sido obrigados a sentar praça n’um corpo de polícia, para defeza da cidade e sua própria, foram por vezes duramente punidos, até com pauladas, por infracções de disciplina! Os cabanos estavam costumados a zombar das auctoridades legaes, que dormiam muito; por isso só quando que Andrea os lapidava sem piedade, é que se convenceram de que havia passado o seu S. Martinho.

 

Resta-me explicar por que motivo tive a honra de ser visitado por aquelle homem distincto. No prefácio do “Cantos Matutinos” ** referi uma das minhas proezas, a qual foi eu ter batido com uma grande colher, cheia de manteiga, na cara de um escravo do presidente do Pará. Quando o mulato recolhia a(o) palácio, pingado desde a cabeça até aos pés, e com os olhos vermelhos do sal da manteiga, encontrou o senhor, que se dirigia para casa dos meus vizinhos. Sabedor do caso, o general entrou no estabelecimento, onde eu estava chorando, com as dores das palmatoadas que recebêra do meu ingrato patrão, por prémio de tão glorioso feito.

 

- Foi o senhor quem quebrou a cara do meu escravo?

- Fui; e por causa daquelle patife, apanhei duas dúzias de palmatoadas!...

- Bem merecidas!

- O senhor diz-me isso?!

- Aposto que me quer dar também com a colher de manteiga?!

- Chame-me gallego, marinheiro, bicudo ou pé de chumbo***, como fez o biltre do seu escravo... e verá!

 

Andrea quis sorrir-se e fez uma careta medonha. O motivo, que só mais tarde comprehendi, provinha de elle também ser portuguez; mas fizera-se brazileiro e não gostava que lhe lembrassem essas diffrenças.

 

- O meu rapaz chamou-lhe esses nomes?

- Por que lhe bateria eu?!

 - Quem sabe?! Vejo-o quase todos os dias atirar pedras aos pretos, quebrar cabeças e fazer tanta bulha n’esta rua!...

- É porque não estou resolvido a deixar-me insultar.

- Quantos annos tem?

- Onze.

- Promete! Continue assim, que há-de ir longe!

 

Saíu; e eu, que tomei a ironia por um cumprimento, fiquei todo vaidoso e ufano de ter ensinado o escravo, sem me lembrar já da sova que isso me custara. D’ahi em diante, quando via passar o homem ilustre, que tinha querido conhecer-me, perfilava-me ao balcão, à espera de novo elogio; mas o grande marechal nunca mais se dignou olhar para mim, nem o seu creado tornou ao estabelecimento!

 

O meu patrão, despeitado com a perda do freguez, poz-me fora por incorregivel!

 

Assim se apreciam e premeiam as mais bellas acções!

 De “Ódio de Raça” – vol 2 – de Francisco Gomes de Amorim, 1874. Manteve-se a ortografia original.

 

*- O general Andrea nasceu em Lisboa em 1781 e morreu em São José do Norte, Brasil, em 2 de outubro de 1858. Foi presidente da Provincia do Pará entre 9 de abril de 1836 a 7 de abril de 1839.

 

**- Se não conhece esta história veja em http://fgamorim.blogspot.com/2009/03/francisco-gomes-de-amorim-outro-bisavo.html

 

***- Estes eram os nomes que chamavam, depreciativamente, aos portugueses!

 

Rio de Janeiro, 2 de Janeiro de 2011

 

Francisco Gomes de Amorim (neto)

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:59

1.- Este texo não é do livro "Ódio de Raça", mas de "O Cedro Vermelho" ;
2.- O erro foi do bisneto (e não neto!) que o transcreveu!
Francisco G. de Amorim
Francisco G. de Amorim a 9 de Janeiro de 2011 às 13:43

Obrigado, Francisco!
Ficam assim feitas as correcções.
Nos próximos episódios já farei a correcção do erro que cometi (bisneto em vez de neto).
Continuemos...
Henrique Salles da Fonseca


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