Elos Clube de Tavira

Novembro 30 2010

 

… REVELAM EMOÇÕES NA PRIMEIRA VISITA A ÁFRICA

 

 

Um grupo de quilombolas - descendentes dos escravos que fugiram dos seus donos no Brasil e fundaram refúgios, os quilombos - está pela primeira vez na África para conhecer a terra dos seus ancestrais.

 

 

A viagem, financiada pela ONG portuguesa Instituto Marquês do Valle Flor e pela União Europeia, começou no último dia 17, na Guiné-Bissau, e termina a 2 de Dezembro, em Cabo Verde.

 

A excursão faz parte do projecto "O Percurso dos Quilombos: da África para o Brasil e o Regresso às Origens". O grupo de viajantes é formado por 21 quilombolas brasileiros - todos do Maranhão - e cinco acompanhantes.

 

"O calor com o que nos acolheram deu a impressão de que já nos conhecíamos há milhares de anos, que realmente somos da mesma família", disse a lavradora e quilombola Maria José Palhano, 50 anos, sobre o contacto com os africanos.

 

"Deu um sentimento de pertença, que realmente somos da mesma família e que fomos levados daqui", afirma ela, que é coordenadora da Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Maranhão (Aconeruq), ONG brasileira parceira do projecto.

 

De acordo com dados do Conselho Ultramarino, o Maranhão recebeu 31.563 escravos entre os anos de 1774 e 1799, quase metade deles vindos da Guiné-Bissau.

 

Cacheu

Partilha cultural

 

A pesquisadora e coordenadora do projecto no Brasil, Verónica Gomes, diz que o objectivo da viagem é de "descoberta e de partilha cultural", promovendo a protecção, valorização e difusão da cultura quilombola.

 

"A demanda surgiu dos quilombolas brasileiros, que queriam conhecer as suas raízes", afirma. "A memória, a oralidade, a territorialidade são princípios na vida dos quilombolas, e isso estará registado para sempre."

 

Palhano identificou nos rostos, no gosto da comida, na hospitalidade e na "alegria de viver, mesmo em horas difíceis" as similaridades entre africanos e os brasileiros afro-descendentes.

 

A visita, segundo ela, veio reforçar esses laços e essa identidade, assim como mostrar outras influências que ainda não havia notado, como no modo de trabalho.

 

"Nós trabalhamos em mutirão e percebemos que isso vem daqui, pois nas roças por onde passamos, a forma de trabalho é a mesma, as pessoas se ajudam umas às outras", afirma.

 

A visita à Guiné-Bissau começou por Cacheu, no noroeste do país. A cidade preserva o forte e o porto de onde saíram escravos com destino ao Maranhão, via Cabo Verde.

 

Os quilombolas visitaram também diversas tabancas, como são chamadas as comunidades rurais na língua crioula de Guiné-Bissau.

 

Também foram realizadas apresentações culturais, tanto de etnias guineenses quanto dos quilombolas, ao longo da semana em que os brasileiros estiveram no país.

 

Música e culinária

 

Para Álvaro Santos, 50 anos, que dirigiu o espectáculo, o tambor de crioula – dança de origem africana celebrada no Brasil em louvor a São Benedito, padroeiro dos negros no Maranhão - é o traço mais marcante da cultura entre os dois povos.

 

"Até hoje, seja numa comunidade quilombola como numa tabanca guineense, o som do tambor é usado para reunir as pessoas, para celebrar", afirma.

 

Apesar de não ser quilombola, Santos diz ter reafirmado nessa viagem a sua identidade de afro-brasileiro. "O jeito, o modo, a cultura, e as manifestações culturais de modo geral estão em todos nós", diz. "Não precisei nascer no quilombo, mas precisei me aproximar deles para me sentir mais negro".

 

Outra identificação entre Cacheu e Maranhão surgiu pela culinária. O cuxá, prato típico maranhense, tem a sua origem na Guiné-Bissau. No país africano, ele é conhecido como baguitche – excepto pela etnia mandinga, que usa o mesmo nome que no Brasil.

 

"Essa é mais uma prova de que os mandingas estiveram por lá", diz o director-executivo da ONG guineense Acção para o Desenvolvimento (AD), Carlos Schwarz da Silva.

 

Emoção no porto

 

Para a "veterana" do grupo de quilombolas, Nielza Nascimento dos Santos, 69 anos, o momento mais emocionante foi chegar ao porto de Cacheu.

 

"Sempre ouvi falar dos meus antepassados, mas nunca tínhamos tido a oportunidade de chegar até aqui. Agora vamos poder levar a história para a nossa comunidade, para o nosso quilombo", diz. "Chorei bastante quando começaram a contar-me como os escravos eram transportados para o Brasil."

 

Depois da visita dos quilombolas, o governo da Guiné-Bissau anunciou que, a partir do próximo ano, irá realizar, coincidentemente com a Semana da Consciência Negra no Brasil, um festival cultural em Cacheu, onde será criado também um memorial da escravatura.

 

Vários quilombolas relataram o desejo de receber os guineenses no Brasil e de manter contacto. "Queremos também ajudá-los, já que a situação aqui é mais difícil do que no Brasil", afirma Palhano. "Lá, lutamos muito e temos água canalizada, energia, escola. Aqui, ainda falta muita coisa."

 

In http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2010/11/quilombolos-revelam-emo%C3%A7%C3%B5es-da-primeira-visita-%C3%A0-%C3%A1frica.html

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:37

Não podemos actualmente pactuar com a escravatura (que continua a existir p. ex. no Sudão para fornecimento dos esclavagistas árabes) mas para que a história fique contada por completo, há que recordar que, na grande maioria das vezes, eram os chefes tribais que vendiam os escravos aos comerciantes esclavagistas brancos e mulatos.
Há que contar toda a verdade para que o odioso não se quede apenas de um dos lados da vergonha.

Henrique Salles da Fonseca
Henrique Salles da Fonseca a 30 de Novembro de 2010 às 09:54

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