Elos Clube de Tavira

Outubro 19 2010

 Júlio Dantas (1876 - 1962 ...

 Júlio Dantas

 

A LIGA DA DUQUESA

 

A senhora duquesa, uma beleza antiga,

de bastão de faiança, de cabelo empoado,

certo dia, ao descer do seu estufim dourado

sentiu desapertar-se o fecho de uma liga.

 

Corou. Quis apertá-lo (ao que o pudor obriga),

mas, voltou-se, olhou... Tinha o capelão ao lado.

Mais um passo e perdeu-se o laço desatado,

e rebentou na corte uma tremenda intriga.

 

Fizeram-se pregões. Marqueses, condes, tudo

procurava, roçando os calções de veludo

por baixo dos sofás, de joelhos pelo chão...

 

E quando já ninguém mais esperava - que surpresa! -

foi-se encontrar por fim a liga da duquesa

no livro de orações do padre capelão.

 

Do livro: "Sonetos" (1916) , in Líricas Portuguesas

 

______________________________________________________________________

 

Júlio Dantas (Lagos, 19.05.1876 - Lisboa, 25.05.1962) foi médico, poeta, jornalista, político, diplomata e dramaturgo. Filho de Casimiro Augusto Vanez Dantas, militar, escritor e jornalista, e de Maria Augusta Pereira d'Eça, estudou no Colégio Militar, em Lisboa, inscrevendo-se seguidamente no curso de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, que concluiu em 1900. Foi oficial médico do Exército a partir de 1902.

 

A carreira de medicina militar, onde optou pela psiquiatria, não o absorveu. Dedicou-se simultaneamente à literatura e a uma intensa actividade intelectual e social, que o tornou conhecido nos meios políticos e nos círculos cultos de Lisboa. Foi deputado às Cortes em 1905.

 

Na literatura revelou-se um verdadeiro polígrafo, dedicando-se aos mais variados géneros literários. Alcançou grandes êxitos com as suas peças teatrais, com obras como A Severa, A Ceia dos Cardeais (traduzida em mais de 20 línguas), Rosas de Todo o Ano e O Reposteiro Verde.

 

Nas suas obras defende o culto do heroísmo, da elegância e do amor, situando a trama quase invariavelmente no século XVIII, época que escolhia como cenário das suas produções, salientando a decadência da vida aristocrática da época. É também comum encontrar a exaltação do efémero, da morte e do sentimentalismo mais pungente. A sua obra poética é claramente inspirada na lírica palaciana do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.

 

Foi considerado retrógrado por alguns, como foi o caso de Almada Negreiros que lhe dedicou o Manifesto Anti-Dantas. Foi Presidente da Academia de Ciências de Lisboa, presidente do Conservatório Nacional, Ministro da Instrução Pública, Ministro dos Negócios Estrangeiros (1921-1923) e embaixador no Brasil (1941-1949). É de destacar o seu papel na elaboração de um acordo ortográfico com o Brasil.

 

Obra - Poesia :- Nada (1896) ; Sonetos (1916)

Teatro: O Que Morreu de Amor (1899); Viriato Trágico (1900); A Severa (1901); A Ceia dos Cardeais (1902); Paço de Vieiros (1903); Um Serão nas Laranjeiras (1904); Rosas de Todo o Ano (1907); Auto de El-Rei Seleuco de Camões (1908); Soror Mariana (1915); O Reposteiro Verde (1921); Frei António das Chagas (1947).

Prosa: - Outros Tempos (1909); Figuras de Ontem e de Hoje (1914); Pátria Portuguesa (1914); O Amor em Portugal no Século XVIII (1915); Abelhas Doiradas (1920); Arte de Amar (1922); Cartas de Londres (1927); Alta Roda (1932); Viagens em Espanha (1936); Marcha triunfal (1954).

Traduções: - Rei Lear, de William Shakespeare, Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand.

 

  Luís Horta

Presidente da Mesa da Assembleia Geral do

Elos Clube de Tavira

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:07


- Em que pensa, Cardeal?
- Em como é belo o amor em Portugal...

Não imaginava possível que quem escreveu "A Ceia dos Cardeais" pudesse também escrever o soneto da liga da Duquesa!!! É o que se chama ecletismo temático.

Henrique Salles da Fonseca



Henrique Salles da Fonseca a 20 de Outubro de 2010 às 21:38

RECEBIDO POR E-MAIL:

Júlio Dantas, muito contestado na época mais pela defesa de valores tradiconais do que por qualquer outra coisa, era um homem eclético. Teve a serenidade de nunca responder a provocações. Mas a sua obra fala por ele. Ainda bem que gostou do soneto, uma gostosa critica social...
Luís Horta

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