Elos Clube de Tavira

Outubro 04 2010

  António Aleixo

 

 

QUADRAS

 

Veio da serra p’ra cidade,

Vender sêmea por farinha…

Passado uns anos já diz:

-“Esta rua é toda minha!”

 

Tu não vais à procissão

P’ra rezar à Virgem Mãe.

Tu vais, para os que lá vão

Verem que tu vais também

 

Que importa perder a vida

Em luta contra a traição,

Se a Razão, mesmo vencida,

Não deixa de ser Razão.

 

Sei que pareço um ladrão,

Mas há muitos que eu conheço,

Que sem parecer o que são,

São aquilo que eu pareço.

 

Vós que lá do vosso Império

Prometeis um mundo novo…

Calai-vos que pode o povo

Qu’rer um Mundo novo a sério.

 

(In “Este livro que vos deixo”)

________________________________________

 

A quadra popular é cultivada um pouco por todo o País e ainda tem entre os menos jovens, muitos dos que a defendem com a garra e os conhecimentos que têm. Estes, às vezes poucos, o que não impede de apresentarem trabalhos muito interessantes e oportunos.

 

António Fernandes Aleixo (N.Vila Real de Santo António – 18.02.1899; F. Loulé 16.11.1949) podia ter sido apenas mais um poeta popular. Mas não o foi só. Não teve vida fácil.

Tecelão, servente de pedreiro em França, pastor e cauteleiro, andou sempre em movimento, de terra em terra, e dos seus versos emana uma certa amargura e desencanto. Mas se essa amargura não esconde que está “de pé atrás” perante o mundo que o rodeia, também mostra que tem das pessoas e das personagens, uma sábia visão e uma critica que nem por ser cáustica, deixa de possuir um conteúdo muito real e muito concreto.

Dois momentos fazem com que a sua obra se não tenha dispersado. Em Coimbra, onde esteve por doença pulmonar, encontra um incompreendido artista plástico algarvio – Tossan – com quem priva durante a permanência de ambos no Sanatório. Mais tarde e já no Algarve, e através de Tossan, é o Dr. Joaquim Magalhães, saudoso professor do Liceu de Faro quem assume o trabalho de guardar e normalizar toda a produção poética.

Vinte anos depois da sua morte e através dos seus descendentes é publicado “Este livro que vos deixo” e em 1978 “Inéditos de António Aleixo”.

Além de ruas com o seu nome em muitas localidades do Algarve, em Loulé, num dos Cafés da Avenida Costa Mealha está uma estátua do Poeta, na esplanada, como se estivesse ainda a vender a suas cautelas da lotaria.

 

  Luís Maria de Mello e Horta

Presidente da Mesa da Assembleia Geral do

Elos Clube de Tavira

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:38

RECEBIDO POR E-MAIL:

Quadras sentenciosas, que, por o serem e não se limitarem ao matiz róseo da sensibilidade pessoal no esbanjar de emoções centradas no ego ou na paisagem, revelam uma inteligência de análise, com a respectiva capacidade de expressão em que tantas vezes sobressai o trocadilho, que fazem de António Aleixo um pensador e um poeta invulgares. Ainda bem que alguém o soube reconhecer e fixar, como igualmente o fizeram os amigos do extraordinário poeta Camilo Pessanha, sem os quais se teria perdido o fulgor de um génio literário das letras nacionais.
Berta Brás

Muito Prezada Senhora Professora Berta Brás:
Daqui lhe sugiro que nos traga Camilo Pessanha a este blog.
Continuemos...
Atenciosamente,
Henrique Salles da Fonseca

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