Elos Clube de Tavira

Julho 28 2010

 Diálogo em Tempo de Escombros

 

Título: DIÁLOGO EM TEMPO DE ESCOMBROS

Autores: D. Manuel Clemente e José Manuel Fernandes

Editora: Pedra da Lua

Edição: 1ª, Abril de 2010

 

 

Da contracapa se extrai que se trata da busca do sentido dos dias que passam.

 

Entrevista sem prazo na qual o jornalista (agnóstico confesso) começa por identificar as questões para que gostaria de obter respostas:

 

• A última década foi, para Portugal, uma década perdida?

• Podemos ter esperança no futuro?

• Como portugueses, temos “medo de existir” ou temos “História a mais”?

• Que papel tem a Igreja Católica hoje em Portugal e no mundo?

• No centenário da República, que balanço das relações entre o Estado e a Igreja?

• Será que vivemos tempos de novos ateísmos e de novos anticlericalismos?

• Bento XVI tem sido o Papa de que a Igreja e o mundo necessitavam?

 

A segunda parte do livro é preenchida com as respostas com que o Bispo do Porto nos presenteia. A erudição não apanha o leitor desprevenido; o que surpreende é a simplicidade da exposição, típica de quem pisa o chão dos comuns, nada a ver com discursos distantes e frios de cátedras inacessíveis.

 

A terceira parte contém uma troca de cartas entre o entrevistador e o entrevistado que servem para aprofundar algumas questões. Se continuei a não ficar surpreendido com as magníficas «lições» de D. Manuel Clemente, tenho aqui que reconhecer o modo elegante, sóbrio e profundo como José Manuel Fernandes aborda as questões e a sinceridade que ab initio evidencia; mostra estar perfeitamente “à altura”.

 

Não tenciono contar aqui o conteúdo essencial do livro mas não resisto a algumas citações.

 

À pergunta inicial – A última década foi, para Portugal, uma década perdida? – D. Manuel Clemente começa por responder com uma afirmação que deixa o leitor desprevenido como que “pregado ao chão”: «Portugal só é viável fora ou para fora de si mesmo». E a partir daqui desenvolve um raciocínio que deslumbra qualquer economista. Notemos que nem todos os economistas deslumbram Bispos...

 

A páginas tantas (na 47), identifica a causa dos nossos males actuais:

 

«A pós-modernidade retraiu-nos mais na subjectividade e no individualismo, (...) em parte pela falência das ideologias que prometiam a resolução de todo o tipo de problemas a partir de ideias únicas, impostas a todos. A partir dos anos oitenta do século XX, foram mais difíceis as mobilizações, a não ser para reivindicar precisamente a ruptura com o que foi geracionalmente transmitido e aceite: daí a voga das causas fracturantes, daí a deriva libertária do liberalismo, que não se legitima a não ser a partir do que cada um queira, sem mais explicações. Acaba por ser outra “ideologia” de tipo contracultural, que durará ainda. Junta-se naturalmente o prazer imediato como “justificação” e a possibilidade material de o obter como “objectivo”, mesmo a todo o custo.»

 

E mais não conto para ter a certeza de que não estrago a leitura integral de livro tão bom.

 

Nota final: se o Prefácio fosse Posfácio, o leitor havia de perceber mais rapidamente o que José Tolentino Mendonça significa.

 

Julho de 2010

 

Henrique Salles da Fonseca

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:25
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Tomo boa nota, Senhor Doutor. Vinda de si a sugestão, é seguro que o livro tem valor e interesse, bastando até atentar nas pistas que nos deixa. Mas tenho de confessar que o jornalista entrevistador deixou de me inspirar confiança com as últimas etapas do seu percurso como director do Público. Deu algumas provas de carácter frouxo e de pessoa pouco isenta. Mas como nada é definitivo na vida (assim quero crer), oxalá ele passe por um período de reflexão e enverede por trabalhos que ajudem a regenerar o baixo conceito em que caiu, pelo menos na opinião de muitos cidadãos. Pode ser que o seu contributo para este livro seja já um indício.
Adriano Miranda Lima a 5 de Agosto de 2010 às 00:36

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