Elos Clube de Tavira

Junho 26 2010

 

 

Em 2001...

 

Não vale a pena ver sempre tudo pelo lado trágico mas, vez por outra, encarar as situações com boa disposição. Faz até bem à saúde.

 

Multa por osmose

 

Um grupo de portugueses que há pouco tempo visitou a África do Sul, alugou meia dúzia de carros e aí vai em passeio pelo Kruger Park, e Suazilandia. Da capital da Suazi à fronteira de Moçambique são uns escassos 150 quilómetros. Porque não ir lá almoçar? Lá vão os seis carros, passam a fronteira mesmo sem visto, deixando os passaportes no controle de fronteiras, porque se tratava de uma visita de um só dia. Um pouco adiante na estrada, a polícia. Manda parar os da frente e começa a multá-los porque não levavam os cintos de segurança colocados. O último carro parou também, mesmo sem que tivesse recebido ordens para isso, mas porque viajava com o grupo. Aproxima-se o polícia:

 

- Tu também estás multado.

- Multa de quê?

- Cinto de segurança.

- Mas eu tenho o cinto colocado, como vê. Só parei porque venho junto com aqueles carros.

- Paraste, não paraste? Então também vais pagar a multa.

- ?!

 

 

A “doença” da pele

 

O Jorge é um trabalhador moçambicano, escuro, como seria de imaginar, que presta serviço na carpintaria da Casa do Gaiato. O “mestre” é um antigo gaiato de Portugal, português de sotaque fechado lá da bimbas do Minho, louro. Trata todo o mundo como se fossem cães infiéis! Foi possivelmente assim que o trataram em pequeno até ser recolhido em Paço de Sousa, para se tornar homem. Berra muito, com todos, mas não passa de berraria, e a maioria já o deixa a falar sozinho. De qualquer modo não é agradável passar o tempo todo a ouvir um sujeito berrar, tanto mais que não parece ser esse o melhor método de ensino. Mas...

 

Um dia o Jorge, depois de ter feito uma série de asneiras na montagem dumas janelas, ouviu uns “porros” a mais e foi queixar-se. No calor das suas queixosas divagações teve a infelicidade de apontar para o pulso e dizer ameaçadoramente:

 

- Se não fosse esta pele.

 

Eu, que estava assistindo, não participando, do problema, avancei para o Jorge, peguei no braço dele e:

 

- Não me diga que você está com um problema de pele. Chegue aqui à luz. Deixe ver. O melhor é você ir ao posto médico. Pode ser contagioso.

 

O Jorge entupiu. Entendeu a mensagem e riu. Daí em diante quando passava por ele sempre lhe perguntava se estava melhor da pele! Ganhei outro amigo!

 

 

Lá vai o combóio, lá vai...

 

Portugal, quando senhor de Moçambique, seguiu à letra a filosofia do homem de visão, cujas ideias foram desumanamente aplicadas, António Enes. Assim, em condições que na maioria dos casos se consideram hoje condenáveis, habilitou-se a colónia, ou província, com uma razoável rede de caminhos-de-ferro, com mais de 3.500 quilómetros de extensão. Isso permitiu desenvolver o país, e continua a ser uma das fontes de divisas, pelos serviços prestados aos vizinhos Suazilandia, África do Sul, Zimbabwe, Zâmbia e Malawi. Mal ou bem, depois da devastadora guerra fratricida, os comboios continuam a circular, a maioria do equipamento muito degradado.

 

“Apeadeiro Diogo”. Ao fundo a Casa do Gaiato

 

Uma das linhas faz Maputo-Suazilandia, sobretudo para daqui trazer o açúcar e outros produtos de exportação deste vizinho. A quarenta quilómetros da capital, passado Boane, o terreno sobre um pouco, muito pouco, e lá vem a formação, uma locomotiva e trinta e cinco vagões, a ter que vencer aquela serra de uns quarenta metros de altitude!
Durante as primeiras semanas que ali estive assisti a algo interessante. As locomotivas não tinham força para carregar aquela parafernália toda por ali “a cima”! O declive não será talvez de 0,5 por cento, mas a verdade é que num determinado lugar o trem parava. O maquinista descia, andava a pé pouco mais de mil metros e ia à Casa do Gaiato pedir para telefonar para a estação central. Ficava por lá um bocado na conversa, até que uma a duas horas depois chegava outra locomotiva a dar o empurrãozinho necessário para tirar o trem dali! Não aconteceu uma vez só. Durante várias semanas isto acontecia quase sistematicamente. Por fim devem ter reparado os motores e o problema ficou resolvido!]No ano anterior, ali mesmo em frente à Casa, onde está a moderna estação-apeadeiro, “Diogo”, nome do antigo proprietário português daquela machamba, e onde no tempo da guerra algumas formações ferroviárias foram dinamitadas e destruídas, voltava da Suazilandia mais um combóio, sempre com os mesmos trinta e cinco vagões a reboque. Desta vez o trem desce. As grandes inundações afetaram tudo, até a estrutura dos aterros de assentamento da linha, a que se pode juntar aquilo que normalmente se chamaria falta de conveniente manutenção. Um dos carris não aguentou, abriu e... lá vão vinte e seis vagões descarrilados. Uns com açúcar, outros com combustível, outros com carga diversa. O maquinista seguiu viagem. Quando parou na estação seguinte é que lhe perguntaram:

 
- Ha! Ha! Como tu só traz nove vagões? Onde estão os outros, pá?

- Não sei!

 

Não sabia. Nem se deu conta que a máquina puxava mais folgada. Era a descer. Da Casa do Gaiato é que viram o acidente, para lá correram, alertou-se a central e mandaram vir bombeiros e ambulâncias porque no meio daquelas ferragens estavam dois homens presos! Lá vieram. Primeiro, soldados para não deixar que o povo saqueasse o açúcar e outros alimentos. Sete horas depois o socorro aos homens. Um entretanto não necessitava mais de socorro!

 

 

Um dos vagões ainda lá está... “perdido”!

 

Dezembro de 2001

 

Francisco Gomes de Amorim

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:56

Prezado CE Salles Fonseca, Presidente do Elos Clube de Tavira(PT):
Muito apreciado o presente texto. Leva-nos a ultrapassarmos as barreiras de nossos territórios e nos localizarmos, imediatamente, no local da ação. Assim, a interação acontece e passamos a conhecer melhor nossos irmãos no campo da lusofonia, quer seja no que tange ao comércio como no senso de humor.
E eles se fazem necessários à vida.
Saudações elistas
CE Maria Inês Botelho-Presidente do Elos Internacional da Comunidade Lusíada
Maria Inês Botelho a 26 de Junho de 2010 às 13:53

RECEBIDO POR E-MAIL:

Significa que, em termos civilizacionais, valeu a pena a "largada". Nem sequer o riso é amarelo.
Berta Brás
Henrique Salles da Fonseca a 26 de Junho de 2010 às 16:09

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