Elos Clube de Tavira

Junho 02 2010

 

 

Sob o culto do consumismo de bens, serviços e notícias, colhe perguntar se haverá ou não lugar para valores intelectuais na perspectiva de conceitos, teorias, princípios éticos e morais.

 

Mais concretamente, a questão está em saber qual é o lugar dos valores superiores num mundo de factos e como podem aqueles entrar neste mundo primário.

 

Poucos são os homens de Ciência que escrevem sobre valores porque a grande maioria considera que essa é uma conversa que não passa de mero palavreado. Contudo, os valores emergem juntamente com os problemas e frequentemente estes dizem respeito a factos.

 

Assim, imaginemos que alguém está a resolver um problema (mesmo sem grande consciência de que o está a fazer) e imaginemos também que um outro problema tenha sido identificado e resolvido, que a resolução tenha sido testada pelo contraditório e que daí tenha nascido uma doutrina. No primeiro caso, apenas a nossa percepção de que a pessoa está com um problema pertence ao mundo intelectual; no segundo caso é o próprio problema e respectiva resolução que pertencem ao mundo da intelectualidade.

 

O mesmo se passa com os valores: uma coisa, uma ideia, uma teoria ou uma abordagem podem ser admitidas como válidas para ajudar a resolver um problema mas só passam a pertencer ao mundo intelectual se forem submetidas à discussão, à crítica. Antes disso pertencem muito provavelmente apenas à esfera do empirismo.

 

O mundo mais primitivo, desprovido de vida, não tinha problemas e, como tal, não tinha valores porque os problemas entram no mundo pela mão da vida e não exclusivamente pela da consciência. Daqui resultam dois tipos de valores: os criados pela vida, pelos problemas inconscientes tais como os do reino vegetal; os criados pela mente humana com base em soluções anteriores na tentativa de resolver problemas. É este último tipo de questões – formadas pelo conjunto de problemas historicamente originados em factos, inerentes soluções, críticas para o despiste de erros, teorias globalizantes e valores consequentes – que dá forma ao mundo da intelectualidade. O mundo dos valores transcende, pois, o mundo sem valores e meramente factual, o mundo dos factos brutos.

 

O drama está quando se disfarça de intelectualidade a mera discussão de factos e, mais gravemente, de pessoas.

 

Imagina-se assim o que fica por fazer entre o primarismo factual e a elevação dos valores...

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

 

KARL POPPER – BUSCA INACABADA, AUTOBIOGRAFIA INTELECTUAL Esfera do Caos Editores, 1ª edição, Fevereiro de 2008, pág. 268 e s

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:56
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Elevação de valores, primarismo dos factos. Mas à conta da elevação de valores é que se parte tantas vezes para os factos primários, à conta dos valores da Justiça se chega ao estado larvar dos egoísmos pessoais que leva a que se atropelem valores, pessoas, situações, em justificações apoiadas nesses mesmos valores... tudo o que temos vivido, tudo o que vamos continuar a viver. Porque o mundo é dos que usam os valores em proveito próprio.
Berta Brás
Henrique Salles da Fonseca a 3 de Junho de 2010 às 09:00

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