Elos Clube de Tavira

Fevereiro 18 2010
 

  

Navegar é preciso, viver não é preciso... Dizem os versos de Fernando Pessoa, talvez reportando as palavras lendárias de um general romano, ao incitar seus legionários à luta no mar.
 
E o homem lançou-se às águas, vencendo o medo, pondo à prova sua capacidade de desvendar os mistérios do além-horizonte, conquistando terras e gentes. Para não perder o reparo e mostrar aos navegantes os perigos da costa e seus baixios, acendeu fogueiras e fachos de madeira resinosa em lugares estratégicos para mostrar o perigo ou , quem sabe, atrair astutamente o inimigo.
       
 
 
Farol da Alexandria
Fonte: Wikipedia
        
Contam os relatos históricos que os gregos, líbios e romanos construíam torres encimadas com fogo para darem sinalização e orientação aos barcos mercantes que circulavam nas águas da conquista romana e do Mediterrâneo. Entre vários ficaram famosos o farol de Bolonha e a Torre de Hercules. No Egito, na ilha de Pharos ( daí o nome), o farol da Alexandria, todo em mármore branco, construído à época de Ptolomeu II em 300 a .C, foi considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo.
 
Com os séculos, os faróis ganharam outras fontes luminosas mais sofisticadas e potentes, aperfeiçoadas com cristais e lentes.  A França mostrando competência levou-os mar adentro. Os paises colonizadores ergueram- nos em terras do novo mundo. 
 
Em Portugal só em 1758, por ordem de Pombal, a edificação e gerencia dos faróis passaram ao Estado. Antes eram construções dispersas, erigidas por Ordens Religiosas e confrarias marítimas. No final século XIX, a farolagem portuguesa passou para a responsabilidade da Marinha. 
 
Apesar de antigas petições, dos muitos naufrágios e tragédias provocadas pelas revoltas águas do Oceano Atlântico Norte, as ilhas dos Açores só tiveram os relampejos dos primeiros faróis em 1876 e 1901 (Ponta do Arnel e Ferraria), em São Miguel.   
                                                   
 
 
Gaspar Pereira Fagundes Jr.
          (arquivo particular)          
 
Foi no final do ano de 1908, que o jovem Gaspar Pereira Fagundes Jr, meu avô, após seleção, foi nomeado pela Marinha Portuguesa para exercer a função de faroleiro no Farol da Vila, Ilha do Corvo (freguesia Nossa Senhora dos Milagres). Casa-se em janeiro de 1909 e, imediatamente, com a esposa, sai da Praia do Almoxarife (Faial) berço da sua família,  para o isolamento do Corvo, onde fica por sete anos. Nesse período nasceram os cinco primeiros filhos (dois deles gêmeos) do casal.
 
                           
                                Naufrágio do paquete Slavonia
                                         Fonte: Guia da Ilha das Flores (pg. 17)
                                       Direção Regional de Turismo dos Açores
 
Nesse mesmo ano de 1909 houve um grande naufrágio nas águas das Flores,  ilha que lhe fica defronte.  O comandante do paquete Slavonia, que vinha de Nova York para a Europa,  para atender ao pedido dos passageiros que queriam conhecer as ilhas açorianas, resolveu mudar a rota ( iria passar ao largo do Corvo) e rumou para o sul das Flores. Num local onde o tempo vira rapidamente ao sabor dos ventos ele foi surpreendido por um espesso nevoeiro e uma forte correnteza. Com as máquinas a todo o vapor, na madrugada do dia 10 de junho 1909, viu seu navio bater e encalhar na costa do Lajedo, a sudoeste da ilha. Os prejuízos foram materiais, perdeu-se boa parte da carga e o navio. Devido a excelente folha de serviços, o comandante depois de  julgado foi  absolvido.  Ainda  hoje é possível ver em algumas casas de florentinos   relíquias, mobílias e utensílios,  recolhidos na praia pelos habitantes daquela época.
 
Findo o serviço no farol do Corvo, Gaspar Pereira Fagundes foi deslocado para a Ribeirinha, ilha do Faial, em 1916, onde se procedia ao acabamento do edifício e montagem do farol daquela freguesia, inaugurado finalmente em 1919. Terminado o período de estágio, meu avô foi transferido para a Ilha da Graciosa, freguesia de São Mateus ( Praia da Graciosa), fixando residência na casa dos faroleiros, na Arrochela, local onde nasceu em 1924 seu sexto filho, Carlos, meu pai.
 
Após o terremoto de 1926, na ilha do Faial, mais uma vez Gaspar é enviado pela Marinha para prestar serviço nos faróis da Ponta da Doca e da Boa Viagem, na cidade da Horta.
 
Tantas andanças e desavenças acabaram com o casamento de meus avós. Assim foi que ele partiu em 1933, desta vez,  sozinho e divorciado,   para trabalhar no farol de Albarnaz, Ponta Delgada das Flores. Tempos depois prestou serviço nos faróis da Fajã Grande e Santa Cruz das Flores. Após alguns anos, nova transferência o levou para o farol das Lages das Flores, local onde realizou o seu segundo casamento civil, em 1938.  Teve mais um filho, Aníbal Fagundes.
 
Mas a vida de faroleiro não era fácil. Períodos de solidão intercalados com mudanças de lugar.
 
Em 1943, meu avô estava  outra vez na Ribeirinha ( Faial), no farol que ele havia inaugurado. Lá ficou durante dois anos até que foi enviado novamente para o das Lages ( Flores)  onde em 1951, como chefe dos faroleiros, já cansado, pediu e foi concedida a sua merecida reforma. Finalmente pode ir para a sua casa.
                                                                             
 
                                        
                                       Farol das Lages , Flores
                                                       ( Revista da Marinha)
                                                      Foto de Manuela Viola
                                        
                                                                                    
Trabalhar num farol requeria, nos faróis com guarnição (com funcionários), capacidade física e psíquica para  enfrentar a rotina e o isolamento. Olhos fixos no horizonte à procura de alguma mudança no tempo ou embarcação. Durante o dia manutenção dos aparelhos, dos metais e vidros. Tudo devia estar em perfeito estado, farol e arredores. Os registros técnicos, ocorrências diárias e procedimentos, anotados com detalhes e precisão. Vigilância constante do mar, dos instrumentos, fazer a sinalização. À noite, antes da moderna tecnologia, era necessário acender e manter a luz do farol.
 
Nas tempestades e nevoeiros, a claridade difusa e pouco visível do farol, associada ao uivo do vento e ao estrondo das vagas batendo na rocha povoavam a mente dos faroleiros de histórias e fantasmas.
 
Mas o faroleiro, sentinela do mar,  estava sempre lá, dia e noite, ajudando o solitário navegante.
 
Se marcares ao largo um lampejo
De um farol amostrar o caminho,
Saberás ser o nosso desejo
Que jamais tu navegues sozinho”..., diz a canção do hidrógrafo.
 
 
                                   
                                            Farol de Mantenha, Ponta da Ilha, Pico
                                Fonte: Livro Pico e Faial-Açores
                       (Everest Editora)
 
Com a evolução dos tempos, os faróis passaram de fogueiras a edifícios equipados com sistemas sofisticados de lentes e fontes luminosas, comandados por células fotoelétricas.  Hoje, mesmo com a toda a moderna tecnologia de rastreamento e posicionamento, oferecida pelos radiogoniômetros e por um sistema de satélites interligados (aparelhos de GPS), o farol ainda é um instrumento importante de sinalização e localização que tem uma longa história de serviços prestados à navegação. Na atualidade, ser faroleiro é recuperar, resguardar e preservar um património histórico milenar, o farol.  
 
Curiosidades sobre os faróis dos Capelinhos e da Ribeirinha, ilha do Faial, Açores.
 
                         
                        Farol dos Capelinhos, na década de 80.
                                      Fonte: foto de Maria Eduarda Fagundes
 
Tem uma torre octogonal, ornada até a platibanda de cantaria em basalto escuro, elevando-se ao centro de um edifício de dois pavimentos.
Altura da lanterna, acima do solo: 35 metros .
Altura do foco luminoso acima do nível do mar: 94 metros .
Luz branca e vermelha, produzindo relâmpagos sucessivos (dois brancos, dois vermelhos).
Alcance: 30 milhas náuticas.
Nota: ( 1903-1957)
Esse farol foi quase totalmente coberto em 1957 pelas cinzas do vulcão submarino dos  Capelinhos . Ao explodir junto à costa formou  uma outra pequena ilha que acabou se fundindo com as terras dessa freguesia. Nele trabalhou Luis Avelar Fagundes, meu tio, também faroleiro, bem antes do sismo.
Hoje, passados 54 anos, pela ação dos ventos o farol está quase descoberto, virou local turístico da ilha do Faial.
 
 
                                
                           Luis Avelar Fagundes
                 Fonte: arquivo particular de Maria Eduarda Fagundes
 
 
        Farol da Ribeirinha
 
Farol da Ribeirinha ( ruínas)
Fonte: Internet A Freguesia da Ribeirinha
 
 
Torre quadrangular, revestida de azulejo branco. Edifício anexo de um só pavimento (para os faroleiros e família)
Altura da lanterna: 20 metros acima do nível do solo
Foco luminoso: 142 metros acima do nível do mar.
Luz branca de três relâmpagos
Alcance: 29 milhas náuticas.
Nota:
Inaugurado em 1919, destruído pelo sismo em 1998.
Gaspar Pereira Fagundes Jr. foi uns dos pioneiros a dar serviço nesse farol, na montagem e na função.
 
 Uberaba, 18/10/09 
 Maria Eduarda Fagundes
                                              Elos Clube de Uberaba
 
Dados, fontes e créditos:Enciclopédia Delta Universal
Anais do Município da Horta
Arquivo familiar de Maria Eduarda Fagundes
Internet: Faróis de Portugal e wikipedia
Livro Pico e Faial, Açores (Everest Editora).
Revista da Marinha, foto de Manuela Viola.
Guia das Flores (folheto da direção regional de Turismo dos Açores)
Internet: A Freguesia da Ribeirinha
publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:54
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Peço que me desculpem alguma incompetência informática no alinhamento das legendas. Espero que com o tempo essas deficiências sejam corrigidas. Mais importante é o conteúdo e o facto de se tratar da estreia no nosso blog de uma ilustre elista brasileira, médica, nascida no Faial, Açores.
Continuemos...
Henrique Salles da Fonseca
Henrique Salles da Fonseca a 18 de Fevereiro de 2010 às 09:15


Ser esposa de faroleiro não é fácil !
Um dia podemos estar na Ponta do Arnel e com um abrir e fechar de olhos estamos no farol de albernaz . O mais longínquo do arquipélago dos Açores.
Quando chega ao mês de Março, estamos sempre à espera de uma chamada que possa indicar uma nova transferência, deixando uma vida e familiares para trás.
É constante inconstante da vida de uma faroleiro e da sua família.
Alice Melo a 27 de Janeiro de 2011 às 13:45

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