Elos Clube de Tavira

Maio 12 2010

 

 João de Deus

 

 A uns olhos azuis

 

Cai a folha da rosa pudibunda,

Cai a rosa da face virginal,

Cai das nuvens a águia moribunda,

Cai o sol na montanha ocidental.

 

Cai a onda na praia, cai do sono

O poeta na luz; e cai das mãos

Dos déspotas o ceptro, eles do trono,

Como a seus pés caíram seus irmãos!

 

Cai dos lábios o riso; cai dos olhos

A lágrima também, que da alma sai;

Cai a rocha no mar, cai nos abrolhos

A flor de lis; de louro a folha cai.

 

Cai do céu a centelha incendiária,

A nuvem cai se um sopro Deus lhe dá,

Cai ante o dia a noite solitária

Como o falso Dagon ante Jeová.

 

Cai tudo, flor! cai tudo; eu só não caio:

Mais do que um rei, que o sol, igual a Deus,

Cair, mulher! só posso à luz d’um raio

Se ele cair do céu dos olhos teus!

 

(In: “Flores do Campo”- 1876)

 

__________________________________________

 

João de Deus de Nogueira Ramos, (08.Março.1830/11.Janeiro.1896). Formou-se em Direito e exerceu advocacia, da qual desistiu. Político não por muito tempo. Jornalista. Mas, sem desprezar a prosa, essencialmente poeta. Publicou “Flores do Campo” e “Folhas Soltas”, mais tarde reunidas, com outros poemas, em “Campo de Flores”. Publicou ainda o “Dicionário Prosódico de Portugal e Brasil(1870), além de inúmeros poemas dispersos, textos e traduções de autores franceses. A obra que no entanto lhe deu maior notoriedade acabou por ser a sua “Cartilha Maternal”, a iniciação à leitura que concebeu, num método que se revelou eficaz e com o qual se propunha acabar com o analfabetismo. A sua consagração veio a acontecer em 1895. Faleceu um ano depois. O corpo foi depositado no Panteão Nacional, numa homenagem em que participaram milhares de portugueses agradecidos pelo alcance e oportunidade da sua obra como pedagogo.

 

 Luís Horta

Presidente da Mesa da Assembleia Geral do

Elos Clube de Tavira

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:15

RECEBIDO POR E-MAIL:

A riqueza imagística de uma alma inteligente e cândida! A extraordinária beleza do madrigal hiperbólico da última estrofe! A dimensão universal de um pensamento insatisfeito, feito de bondade e de amor, que se revela até nas imagens de uma natureza suave, num deslizar aliterativo dos sons... Um encanto sempre.
Berta Brás
Henrique Salles da Fonseca a 12 de Maio de 2010 às 23:17

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