Elos Clube de Tavira

Maio 09 2010

 

 

Nos grandes lances de vida, quando o homem se sente chamado para alguma coisa importante, não o move tanto o conhecimento, mas basicamente o instinto gravado no seu DNA. O impulso ganha movimento, marcha, vai em frente, através do valor do seu juízo pessoal, na busca de um ideal de felicidade, força motivadora que o leva a um tipo de atitude perante o mundo e a ele mesmo.

 

Sentimento como o patriotismo advém de uma emoção incutida por comportamentos racionais, aprendidos e exercidos com respeito e crença. O Português nasceu sob o signo da fé, tendo nas veias o germe da curiosidade, da aventura, do comércio. Desde remotos tempos, guiado por um ideal divino, nele ganhou força, desenvolveu coragem, criou asas.

 

Como nação unificada, primeira da Europa, ergueu-se como produto das Cruzadas. Subjugou os mouros, cresceu, dominou os mares, conquistou outras terras, levou e trouxe para outros povos coisas, conhecimentos, riquezas, culturas novas. Sob a égide da Cruz da Ordem de Cristo, lutou, matou e morreu, construiu um império, criou uma identidade reconhecida em todo o mundo. Religioso, submeteu-se à Igreja católica romana, sua luz e cadeia.

 

Para além da necessidade material, a crença que o homem se liga ao Ser Supremo, através da fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo, leva-o a comportamentos intrépidos, heróicos, que a racionalidade ateia desconhece. Portugal identificou-se com as crenças do Cristianismo, nele achou respostas aos sofrimentos e injustiças humanas. Espera a recompensa divina na imortalidade da alma que Deus promete, num mundo esclarecido, sem desigualdades sociais, de paz para todos, de força para fazer o que é preciso, de temor para refrear o orgulho, de conselho para tomar cuidado, de piedade para combater o egoísmo; dons que o Espírito Santo representa.

 

Com D. Sebastião, Portugal morre como expoente na Civilização Ocidental do século XVI. Após Alcácer-Quibir, o Império Português desmorona aos poucos, vítima de uma sequência de factos históricos e secretos, que o prostrou ao Espanhol, à Igreja Romana, ao mundo civilizado. Com a Inquisição tolheram aos portugueses o domínio do saber e da economia. Com a Espanha, encimando as coroas ibéricas, perderam feitorias africanas e asiáticas, frotas mercantes, armas, fortunas familiares, compradas aos morgados. Quase perderam o Brasil para os Países Baixos.

 

Esvaziado de riquezas, ideias e de ideais, em ciclos de prosperidade passageira, Portugal viu seu povo entrar em depressão, negligenciar-se nos estudos e na defesa, afastar-se da evolução da modernidade europeia. Se não fosse Salazar, um patriota que pôs a soberania do país acima de qualquer coisa, talvez até os Açores fossem americanos agora, coisa que o ressentimento contra o Continente deixaria muitos ilhéus contentes.

 

Mas o tempo tudo muda, as situações, o ambiente, fica só o gene das pessoas, também modificado pelas misturas.

 

Hoje Portugal globalizado, parcialmente modernizado, deficientemente educado, insuficientemente produtivo, inchado por governos burocráticos e pouco eficientes, com problemas ético-administrativos para resolver, vê-se outra vez economicamente submetido ao estrangeiro (vizinho), tentando superar os desafios de se manter uma nação idónea, numa comunidade que o encara com pouco crédito.

 

Entre tudo isso, o que mais assusta é perceber uma juventude apática, sem ideias próprias, com a identidade esquecida, com a história da pátria ignorada, com valores estranhos à sua cultura, sem um ideal comunitário que puxe para adiante o país. Talvez, na actual conjuntura, o que se precisa é recorrer à Reserva Espiritual de Portugal, os Açores. Quem sabe não seja o Culto ao Espírito Santo, preservado na memória e exercido na cultura insular, a fonte anímica e restauradora da identidade nacional? Quem sabe não seja o arquipélago atlântico a mostrar o caminho, o desígnio profético da Nova Era?

 

Numa época materialista, fria de sentimentos, que cultua o individualismo, o egoísmo e a indiferença ao que se passa com o irmão, resta-nos buscar, como antigamente, respostas na fé que anima a alma e revigora o espírito. Afinal somos produtos da criação de alguma força sobrenatural que nos submete e que ao mesmo tempo nos fortalece, que dá a ilusão que, embora tão pequenos, nos sintamos tão grandes.

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 21/04/2010

 

Fonte da Foto: Livro “O Culto do Espírito Santo” (Tomaz Duarte Jr.)

publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:07
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